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Considerações sobre as Origens do Tarô Egípcio no MGCU

3 ago 2016

Considerações sobre as Origens do Tarô Egípcio no MGCU

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Este estudo pretende fazer algumas observações acerca do tarô utilizado pelos membros do Movimento Gnóstico Cristão Universal (MGCU), buscando descobrir as suas origens e a sua relação com os demais modelos de tarô existentes. E começamos ressaltando que o tarô amplamente conhecido pelos estudantes gnósticos, denominado tarô egípcio, tem a sua origem na Argentina, e não no Egito, com o trabalho de um ocultista chamado Iglesias Janeiro, em meados dos anos de 1950.

Este tarô é conhecido mundialmente como o tarô egípcio Kier, uma vez que o seu autor foi dono da livraria e editora homônimas. E apesar do mesmo possuir uma série de características próprias, tal como a ausência de naipes entre os arcanos menores, observa-se que ele dialoga com todos os demais tarôs tradicionais. Aprender a reconhecer este fato só enriquece o estudo do tarô e sua simbologia.

Este diálogo será abordado mais adiante, para benefício do leitor. Contudo, para compreender a abordagem original dos estudos sobre o tarô no seio do MGCU, deve-se perceber que a mesma é o produto de uma evolução, e com isso queremos dizer que o tarô egípcio da Kier, em sua versão modificada por Samael Aun Weor, não foi o único tarô usado por este Mestre. É um fato incontestável que, inicialmente, Samael Aun Weor utilizou tarôs tradicionais e, muito provavelmente, o tarô desenhado por Papus. A obra que embasa estas afirmações é o ‘Curso Zodiacal’, publicado em 1952, (portanto anterior à existência do tarô desenhado por Iglesias Janeiro), que apresenta na lição de Sagitário um estudo sobre o tarô, baseado e articulado com o livro ‘O tarô dos Boêmios’ de Papus.

Samael Aun Weor, apesar de ser tributário a Papus em várias concepções acerca do tarô, chega a mencionar de forma generalista que suas obras são magia negra, relacionando suas interpretações e abordagens, sobretudo nas concepções sobre o ‘Nuctemeron’ de Apolônio de Tiana. Nesta passagem, surge pela primeira vez na literatura gnóstica de Samael Aun Weor a menção à natureza do verdadeiro cabalista, que é intuitivo em suas apreciações, ao contrário dos magos negros, que são intelectuais e frios em suas análises.

Realmente, nesta perspectiva, se observarmos o mencionado livro de Papus, perceberemos uma série de especulações aritmomânticas que destoam da proposta sintética e prática do ocultismo de Samael Aun Weor. Todavia, neste momento, as concepções e análises simbólicas do mago francês nortearam os estudos gnósticos acerca do tarô (já considerado tradicionalmente de origem egípcia), tanto em suas balizas teóricas quanto práticas. É importante notar ainda que os estudos sobre o tarô de Papus também influenciaram Iglesias Janeiro na elaboração das sínteses pictográficas de seu tarô, que mais tarde será adotado como oficial no seio do MGCU, com leves modificações.

No mesmo ‘Curso Zodiacal’ de 1952 já há menção direta a Iglesias Janeiro, justamente na lição de Sagitário que versa sobre o tarô. Partindo destas breves considerações, percebe-se que o emprego do tarô egípcio da Kier entre os estudantes gnósticos foi uma opção de Samael Aun Weor, mas que o mesmo lidava anteriormente com outros modelos de tarô, e estes influenciaram as suas concepções teóricas a ponto dele modificar o tarô desenhado por Iglesias Janeiro.

Esta modificação ocorreu para adaptar o tarô da Kier a certas concepções simbólicas e esotéricas tradicionais, já presentes em sua primeira abordagem do tarô, influenciada por Papus, onde o arcano 21 é a carta associada ao ‘Louco’. Ressaltamos que o objetivo deste nosso estudo não é esgotar o assunto, motivo pelo qual não serão abordados todos os diversos símbolos presentes nos arcanos e as suas associações, muito menos a evolução nos modelos de tiragem das cartas.

Seguindo os indícios bibliográficos sobre os tarôs empregados pelos membros do MGCU, observa-se que em 1954 já há menção implícita ao tarô egípcio da Kier. Este indício está na capa do livro ‘Manual de Magia Prática’, que contém em sua apresentação original a reprodução de uma das cartas desenhadas por Iglesias Janeiro, além da presença dos nomes dos arcanos maiores conforme estabelecidos por este autor. Neste primeiro momento, a abordagem de Samael Aun Weor já é fiel ao modelo anterior, tradicional, uma vez que ele inverte o nome de dois arcanos, chamando o capítulo 21 da obra mencionada de ‘Regresso’ e o capítulo 22 de ‘Transmutação’, para associar a carta com a imagem do ‘Louco’ como a vigésima primeira carta.

Esta inversão de nomes é importante, pois, em seu tarô, Janeiro optou por relacionar o arcano 22 ao ‘Louco’, algo problemático, visto que em suas associações às letras hebraicas este arcano aponta para a letra ‘thau’ e não para a letra ‘schin’, que é tradicional e esotericamente vinculada ao ‘Louco’.

Concluindo, percebe-se que Samael Aun Weor manteve as suas concepções originais, presentes no ‘Curso Zodiacal’, uma vez que deu feições próprias ao tarô egípcio da Kier, que seria utilizado no seio do MGCU, invertendo pictograficamente os arcanos 21 e 22, mas mantendo os nomes e associações originais, de modo a manter o arcano do ‘Louco’ associado à letra ‘schin’ e às concepções anteriores.

Provando esta modificação, observam-se as ilustrações do livro ‘Curso Esotérico de Cabala’ de Samael Aun Weor, publicado em Capa original do livro ‘Manual de Magia Prática’ de 1969, no qual já há adesão aberta ao tarô desenhado por Iglesias Janeiro, mas há a inversão pictográfica dos arcanos mencionados, guardando as relações simbólicas tradicionais mencionadas no ‘Curso Zodiacal’. Desta maneira, chegamos à origem do tarô empregado no seio do MGCU, que foi alvo de estudos em atividades de Terceira Câmara, conforme atestado pelo livro ‘Tarô e Cabala’, de Samael Aun Weor, que compila uma série de estudos simbólicos, iniciáticos e práticos sobre o tarô e a cabala.

 

21 e 22 kier

O tarô apresentado inicialmente por Iglesias Janeiro provavelmente não possuía cores, de modo que todos os arcanos eram desenhos em preto e branco, os quais em dado momento ganharam cores. De qualquer forma, no seio das instituições e editoras gnósticas, estas foram agregadas de forma parcial e arbitrária, colorindo-se na maioria das vezes somente os arcanos maiores, ainda que tenham existido versões coloridas de todos os arcanos no seio do MGCU.

Retomando a relação do tarô egípcio da Kier com os demais tarôs existentes, a principal característica do tarô desenhado por Iglesias Janeiro é o abando dos naipes tradicionais nos arcanos menores e a completa ilustração destas cartas com imagens de inspiração egípcia, que pretendem dialogar com as supostas origens egípcias do tarô, totalmente míticas e não comprováveis historicamente.

Abordando este diferencial e pretendendo elucidá-lo, afirmamos que mesmo os naipes não estando presentes nas ilustrações, eles nortearam o significado e o simbolismo de cada um destes arcanos menores, algo comprovável ao se observar comparativamente os arcanos menores do tarô desenhado por Papus. Neste tarô, os arcanos menores estão numerados de 23 a 78 e divididos segundos os seus naipes, relacionados aos quatro elementos da alquimia, agregando outros simbolismos astrológicos que não convém abordar no momento.

A sequência dos naipes segue a ordem de Bastões (Paus), Taças (Copas), Gládios (Espadas) e Moedas (Ouros), vinculados à Fogo, Água, Terra e Ar segundo Papus, (à Terra, Água, Fogo e Ar segundo Samael Aun Weor), sendo organizados internamente em Senhor (Rei), Senhora (Dama), Soldado (Cavaleiro), Escravo (Valete) e na sequência decrescente de 10 a 1 (Ás).

Desta maneira, pode-se estabelecer o seguinte quadro, a partir do qual estabeleceremos uma breve análise, comparando alguns significados tradicionais de arcanos menores e o conceito chave de alguns dos arcanos desenhados por Iglesias Janeiro. Denota-se que, cada um dos nomes dos arcanos menores do tarô egípcio é o conceito chave do mesmo, que deverá nortear a sua adaptação e interpretação dentro de um contexto específico de leitura.

tabela kier

Abordando as definições dos arcanos menores presentes no livro ‘Tarô adivinhatório’, da editora Pensamento, que retoma vários conceitos do livro homônimo de Papus, apontamos para o arcano 23, o ‘Lavrador’ nos arcanos menores desenhados por Iglesias Janeiro e o Senhor de Bastões nos tarôs tradicionais. A definição do mencionado livro brasileiro assinala a seguinte descrição do Senhor de Bastões: ‘esta lâmina significa homem do campo, homem bom e severo, pessoa bem intencionada e honesta’. Uma definição bem próxima ao conceito chave que nomeia o arcano menor na versão egípcia da Iglesias Janeiro.

Porém, cada arcano menor do tarô egípcio da Kier apresenta o resultado dos estudos de seu autor, e desta maneira não se devem esperar associações tão simples e diretas quanto as apresentadas anteriormente, senão que, por vezes, algumas relações são bem distantes e vinculadas pictograficamente. Um exemplo disso tem-se no arcano 37, o Senhor de Taças entre os naipes e ‘Arte e Ciência’ na versão de Iglesias Janeiro, pois esta carta denota ‘homem louro, honesto, probo e serviçal, (…) amizade e benevolência’ segundo o manual da editora Pensamento.

Todavia, este arcano também pode se associar à relação do princípio ativo e criador ‘yod’ no elemento água, ou seja, a criatividade na arte e a capacidade de realização, por extensão, arte e ciência. Nesta carta, Janeiro desenhou um escriba loiro (cabelo claro na versão preto e branco) no ato de escrever, que sintetiza tanto a ideia de homem loiro quanto a criatividade no campo da arte e da ciência, palavras que nomeiam o arcano. Agrega-se ainda neste arcano a imagem do babuíno, símbolo do conhecimento, e de uma deidade egípcia coroada, que insiste na concepção de princípio criador.

E para concluir este breve estudo, reafirmamos que o mesmo se apresenta como uma simples introdução a estes estudos e não esgota o assunto. Traz alguns elementos relevantes sobre a história e simbolismo do tarô empregado no seio do MGCU, e demonstra que a adesão a um modelo de tarô por Samael Aun Weor foi uma escolha ocorrida em um contexto, mas que a mesma não anulou a sua relação com outros modelos de tarô tradicionais, inclusive aqueles mais antigos que o desenhado por Iglesias Janeiro,

Queremos ainda desfazer o mito que circula em alguns meios gnósticos, onde se escuta que os tarôs de naipes seriam versões empobrecidas do tarô egípcio. Fica evidente que as cartas desenhadas por Iglesias Janeiro são sínteses conceituais e pictóricas de cada um dos 56 arcanos menores tradicionais, que são desenhados originalmente com naipes. O valor de um tarô está em sua fidelidade aos elementos simbólicos tradicionais, os quais foram interpretados e apresentados por todos os ocultistas como as chaves para o atemporal Reino Interior, que nos permite ver a amplitude do todo no passado, no presente e no futuro.

5 Respostas

  1. Victor

    Ivan,
    Quais os motivos pelo qual Papus é retratado como Mago Negro no MGCU?
    (Além da questão Kabalistica Intuitiva X Intelectual)

  2. Ivan Ivanovitch

    Olá, Victor!

    Obrigado pela pergunta.

    Neste caso, a afirmação de Samael Aun Weor a respeito das obras de Papus decorre de uma interpretação de Papus acerca do ‘Nuctemeron’ de Apolônio de Tiana, que não é especificada, somente mencionada.

    Eu não sou um conhecedor da obra de Papus e nunca pesquisei a qual passagem específica essa menção aponta, caso algum leitor possa contribuir nesse aspecto com este post, ficarei agradecido, pois poderíamos estudá-la sob a luz dos estudos gnósticos.

    Cabe ressaltar que, apesar de sua crítica geral à obra de Papus, Samael Aun Weor não deixa de usá-lo como referência, mas insistindo em suas ressalvas, sobretudo a de que o verdadeiro tarólogo e cabalista deve ser intuitivo e não um mero intelectual.

    Por isso, sugiro que aprofunde seus estudos a respeito do tema, sobretudo em sua pergunta, não se prenda ao rótulo ‘mago negro’, mas tenha sempre em mente, em seus estudos e práticas, as diretrizes essenciais do conhecimento gnóstico.

    Saudações gnósticas!

  3. Nelson

    Muito interessante.
    Não sabia que existia vários tipos de Tarô.
    Já tinha iniciado o estudado do Tarô de Papus sem completa-lo.

  4. Ivan Ivanovitch

    Olá, Nelson!

    Obrigado por compartilhar sua experiência conosco.

    Embora haja muitos tarôs, estes acabam seguindo sempre as mesmas linhas gerais, com as variações conceituais de seu autor, que se refletem em suas imagens e concepções teóricas. Por isso o estudo de um contribui para a compreensão de outros.

    Na minha opinião, o tarô egípcio da Kier é extremamente completo, mas a sua compreensão conceitual não é simples. Daí a sua comparação com outros tarôs ser muito útil, sobretudo com os tradicionais, que eram utilizados inicialmente, como mencionado no post.

    Saudações gnósticas!

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