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10 fev 2014

Convivência com Consciência

Dentre todas as dificuldades do mundo moderno, há uma característica do comportamento atual humano que se destaca por seu absurdo. Durante a vida são aprendidas diversas coisas, sendo a maioria sem muita aplicabilidade no cotidiano. Já aquilo mais natural e básico para nós tornou-se algo muitas vezes indigesto, como o simples ato de relacionar-se. A interação com o próximo desde a inconsciência nos leva a rotularmos ela como algo problemático, como se a intimidade fosse algo a se evitar. Porém, o isolamento leva à separação, à morte.

Convivência com ConsciênciaEmbriagados pela solidão profunda, buscamos desesperadamente uma conexão com o outro. Entretanto essa procura vem desde uma falsa ideia de que o outro vai preencher o vazio. O que queremos em verdade é matar a sede do Divino e de fato, podemos acessá-lo no outro, mas antes devemos reconhecer Deus em nós mesmos. Isso não se restringe a relacionamento amoroso, mas a toda e qualquer relação, seja com a sua mãe ou com o lixeiro – a vibração do amor incondicional.

Deus está dentro de nós, em forma de chispa de luz que nos dá vida. E onde está a nossa atenção, está a nossa consciência. Então, quando nos projetamos para fora e esquecemos de olhar para dentro, ocorre a desconexão consigo mesmo e com o Divino. Assim como a criança cujos coleguinhas resolvem ignorar e fingem que ela não está ali. É através do olhar de reconhecimento que sabemos que estamos aqui, logo a criança começa a duvidar de que ela existe, como se fosse invisível e sem valor. Se estamos apenas fora de nós, é como se estivéssemos dando as costas para Deus, ignorando a sua pulsação em cada átomo nosso.

Portanto, existem almas ao nosso redor que nos ajudam a lembrar quem somos. Quem iniciou a senda do caminho espiritual compreende que a família e amigos próximos são os melhores espelhos que temos, refletindo-nos com muito amor. Quando a consciência está despertando, todas as interações são presentes. Através delas é que percebemos como estamos internamente, quais os nossos padrões e impulsos. Daí o desafio de se viver em grupo, seja uma família de 3 integrantes ou uma eco-vila de 70 pessoas, variando a intensidade do trabalho, dependendo da intenção espiritual.

“O melhor trabalho social, politico e espiritual que podemos fazer é parar de projetar as nossas sombras nos outros.” (Carl Gustav Jung)

Viver em comunidade é algo intimamente desafiador. É necessário que cada um, de forma interna e pessoal, tenha uma firme auto-observação para se desprogramar de todo lixo que nos impede de vivermos na nossa essência de Luz. Não existe real comum-unidade se não respeitarmos a individualidade de cada um, pois só se pode unir aquilo que um dia foi separado. Cada um tem o seu livre-arbítrio concedido pelo Ser Supremo e isso deve ser respeitado, em suas vontades e espaço áurico. Vivemos numa sociedade totalmente co-dependente onde as trocas energéticas são extremamente doentias. Uma grande confusão que não nos permite saber o que é meu e o que é do outro.

Como reflexo dessa mútua invasão energética, há ciclos de tentativa de dominação e logo reação agressiva como mecanismo de defesa. Ali nasce a espiral negativa da competição, a pedra fundamental do sistema. Nesse paradigma ganha-perde, sempre um lado “ganha”, mas na realidade todos perdem. Eis o motor deste paradigma, pois o “perdedor” vai buscar alternativas (às vezes não muito boas) de tentar novamente ou se vingar, movido por energias de baixa vibração. Já quem ficou com “a razão” identifica-se totalmente com ela e vai defender esse lugar até a última gota de sangue.

Parece uma batalha e verdadeiramente é. Não muito raramente nos sentimos em disputa com o outro, colocando-o num lugar de oponente, um vil e infantil jogo de auto-afirmação manipulado pelo ego. E na montanha russa desse parque de perdição, nutrem-se das nossas emoções perturbadas todos os tipos de ilusão: medo, insegurança, controle, poder, e as máscaras. Dois filmes que retratam bem essa dinâmica sádica são Dangerous Liaisons (Ligações Perigosas) e Vanity Fair (Feira de Vaidades).

“A medida que conseguimos pulverizar um defeito ou um vício, aumentaremos consciência em poder, sabedoria e amor”. (O Despertar do Homem, Samael Aun Weor).

A boa notícia é que a cura para as relações nas três esferas são acessíveis, já que estão dentro de nós. Logo, para viver em paz consigo mesmo, com o outro e com o mundo, basta nos libertarmos da energia que escraviza, que toma as decisões desde esse lugar temeroso. É uma questão de observar isso ocorrendo e livremente escolher mudar a fonte, recuperando o poder que nos foi sequestrado anteriormente. Se me desfaço da imagem que tenho sobre mim mesmo e aceito onde estou, e quais os demônios internos que devo deixar de alimentar, tudo clareia. Difícil é dissolver um aspecto invisível ou escondido/reprimido.

Se assumirmos responsabilidade sobre absolutamente tudo que nos diz respeito internamente, tornamo-nos livres e automaticamente libertamos o outro. Fácil é continuar achando que foi o outro que te irritou, difícil é olhar pra dentro e ver o que em você não gostou. Sempre o que vemos fora é um reflexo do que temos dentro. Ao nos empoderarmos das próprias emoções, o outro nunca vai ser a causa dos nossos estados, assim como tampouco irá se deixar abalar por nada externo.

“É importante perceber a diferença entre as suas necessidades e as suas carências. Suas necessidades são poucas, enquanto suas carências podem ser ilimitadas. A fim de encontrar a liberdade e a bem-aventurança, ocupe-se apenas de suas necessidades. Deixe de criar carências ilimitadas e de perseguir o fogo-fátuo da falsa felicidade.” (Paramahansa Yogananda)

Já imaginou você não ter ninguém que te desgrace? Ou não ser responsável pela felicidade do outro? Assim, temos mais condições de entender que cada um tem a sua forma de pensar, de sentir. Cada um tem o seu tempo e sua maneira de se expressar no mundo. Apenas respeitando a nossa separação é que poderemos viver em real comum-união. Consequentemente, quando se fala em conviver com um grupo de pessoas, para se viver de fato uma fraternidade, é necessário abrir mão do poder, controle, hierarquia, domínio.

Isso passa por um exercício muito simples como dar e receber o “não”. Culturalmente fomos criados para sempre fazer o que os outros querem, mesmo quando isso não é a nossa vontade. Ao mesmo tempo isso gera uma ferida energética interna que os faz devolver a mesma forma de domínio em outro ambiente. Como o pai de família que no trabalho é submisso e em casa um ditador. Ou a uma mulher que perante outra socialmente mais reconhecida se subjuga, mas com a diarista se transforma numa rainha mimada.

Ora, se eu faço um pedido a alguém, aquela pessoa é fundamentalmente livre para fazer ou não o que estou solicitando, cabendo a cada um de nós aceitar tanto o “sim”, quanto o “não”. Se não aceitamos o “não”, então é uma exigência, e não um pedido. Agimos como se o outro fosse obrigado a suprir as nossas necessidades. Se não damos espaço para a pessoa escolher, é uma imposição autoritária, é a tentativa de exercer domínio energético sobre a pessoa e sua escolha. Essa autuação pode ser através de um confronto direto, barganha, manipulações ou chantagens emocionais.

“Não crie exigências. Qualquer coisa que chegue naturalmente, receba como um presente, desfrute dela e se encante com ela. E milhares são os presentes que jorram sobre você, mas devido à sua mente exigente você não consegue vê-los.” (Osho)

Quando deixamos de exercer o nosso poder sobre os nossos semelhantes, aí sim eles serão pró-ativos, fazendo com amor e entusiasmo aquilo que o coração diz. Desta forma, será muito mais gratificante para nós ver aquele Ser brilhar, e fazer as coisas porque querem e não porque exigimos. Ao exigir que o outro cumpra o que mandamos, como bons servos, tentamos escravizá-lo e sem perceber que na verdade os escravizados somos nós. A obediência não é um ato de cooperação. A cooperação não se dá nas relações de dominação e submissão.

Para sair desse ciclo vicioso, a chave está na auto-observação e no questionamento de qual a origem daquela sensação ruim, do incômodo. Encontramos ali desde simples momentos enormes oportunidades de se desenvolver e limpar todo lodo que encobre a Luz. Se isso ocorre de forma consciente e nos tornamos observadores das situações, vemos que a pessoa com quem estamos em conflito (o outro ou nós mesmos) sente que alguma necessidade básica sua não está sendo atendida. Deixamos que ela coloque para fora o que precisa, sem nos identificarmos. Passamos a olhar ela com compaixão.

“A tendência marcada a culpar os outros é um obstáculo que impede a compreensão de nossos próprios erros.” (Samael Aun Weor)

Esse amor profundo brota em relação a nós mesmos e aos demais quando reconhecemos as ilusões. E elas caem e isso dói, mas o sofrimento é proporcional ao apego em relação a elas. Sempre que tentamos controlar qualquer energia, moldá-la, ou fixá-la com o apego, ela se torna rígida, não-fluída e morre. Isso vale para todo e qualquer tipo de memória, que por si só já é ilusória, pois não corresponde ao momento presente e a energia que flui no agora fica sem atenção, sem consciência. Portanto, sem movimento, flexibilidade e ponderações, não há vida. E o foco deve estar no aqui e agora, o único tempo que existe.

Enfim, se queremos de fato construir um lar feliz, uma comunidade, devemos começar por nós mesmos. Quando a Luz crescer em mim, irá se expandir para a minha família e amigos próximos (pequeno círculo), depois para minha comunidade (ecovila, bairro, etc) e depois para o mundo, de forma real, gradual e consciente, através das minhas escolhas, momento a momento, de dentro para fora. Cada mudança interna minha é como uma pedra no lago, reverberando através da inspiração do outro através de minha alteração de energia e atitudes – o exemplo.

Viver de maneira harmônica e leve é possível, basta cada um de nós arregaçar as mangas e fazer o que tem que ser feito! Tudo que o ser humano que é amar e ser amado. O que você está esperando para ser livre e viver em paz?

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