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3 jul 2012

A Regra de Ouro e a Ética da Reciprocidade

Antigos textos de sabedoria encontrados em quase todas as tradições religiosas mundiais e originalmente produzidos em sociedades orientais, mesopotâmicas, egípcias e gregas, contêm um código de ética universal que vem guiando a moral da humanidade. Este código é conhecido como a Regra de Ouro, que consiste em tratar os outros da maneira que você quer ser tratado.

Nas tradições cristã e judaica, a Regra de Ouro é apresentada como sendo a essência de todo ensino religioso. Segundo a parábola do bom samaritano, um doutor da lei pergunta a Jesus o que deve ser feito para alcançar a vida eterna. Jesus não responde, mas pergunta como ele entende a lei. E o doutor diz: “Amarás o Senhor teu Deus com todo seu coração e com toda a tua alma e com toda sua força e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo” (Lucas 10:27).

Da mesma forma, no Talmud encontramos o rabino Hillel dizendo: “O que é odioso para si mesmo, não faça ao seu próximo. Essa é a essência da Torá. O resto são apenas comentários.”

Conhecida também como a Ética da Reciprocidade, a Regra de Ouro pode ser encontrada sob duas formas. Em sua forma positiva, afirma que devemos tratar os outros como gostaríamos que os outros nos tratassem.

Já em sua forma negativa, que é conhecida como Regra de Prata, afirma que não devemos tratar os outros de maneira que não gostaríamos de ser tratados.

Este conceito descreve uma relação recíproca ou de duas mãos entre o indivíduo e os outros, envolvendo os dois lados de maneira equilibrada e mútua. É possível encontrar reflexões a respeito da Regra de Ouro nos diversos ramos da psicologia, da filosofia, da sociologia e das religiões.

Em 1993, o Parlamento Mundial das Religiões, através da Declaração para uma Ética Mundial, proclamou que a Regra de Ouro é o princípio comum da grande maioria das religiões. A declaração inicial, que continha a frase “devemos tratar os outros como queremos que os outros nos tratem”, foi assinada por 143 líderes reconhecidos de todas as principais religiões do mundo.

Entre estes líderes estavam presentes os representantes de tradições religiosas e filosóficas como Fé Bahá’í, Bramanismo, Brahma Kumaris, Budismo, Cristianismo, Hinduísmo, Xamanismo, Islamismo, Jainismo, Judaísmo, Indigenismo, Neopaganismo, Sikhismo, Taoísmo, Teosofia, Universalismo Unitário, e Zoroastrianismo.

Psicologicamente, a Regra de Ouro implica na empatia de uns com os outros. Filosoficamente, implica em que uma pessoa perceba o seu próximo como se fosse ela. Sociologicamente, é um princípio aplicável entre indivíduos, entre grupos e entre indivíduos e grupos. Uma pessoa que viva por esta regra trata os outros com consideração, não apenas membros de seu grupo interno.

Algumas das primeiras encarnações da Regra de Ouro podem ser encontradas no Código de Hamurabi (1780 a.C.), que apresenta o conceito da reciprocidade ética de diversas formas, como a retribuição limitada apenas ao que era igual e equitativo, como está expresso na famosa máxima do “olho por olho e dente por dente”.

As grandes escolas filosóficas da China antiga, como o Taoísmo e o Confucionismo, apresentam a Regra de Ouro em diversos momentos. Nas palavras de Confúcio encontramos: “Gong Zi perguntou, dizendo: Existe uma palavra que pode servir como uma regra de conduta para toda a vida? O Mestre disse: Não é a reciprocidade tal palavra?”

Em outro momento, o mesmo sábio disse: “Nunca imponha aos outros o que você não escolheria para si mesmo.” Já o sábio Lao Tsé afirmou: “O sábio não tem interesse próprio, mas toma os interesses dos outros como seus. Ele é bom ao mau, pois a virtude é a bondade. Ele é fiel ao fiel, e fiel ao infiel, pois a Virtude é fiel.” E acrescenta: “Considere o ganho de seu vizinho como seu próprio ganho e perda de seu vizinho como a sua própria perda.”

Um dos primeiros exemplos da Regra de Ouro reflete o antigo conceito egípcio de Maat, que aparece na história de O Camponês Eloquente, que data do Império Médio (2040-1650 a.C.) e diz: “Agora este é o comando: faça ao outro uma coisa tal que ele, ao fazer algo a você, seja semelhante àquela coisa.” Um exemplo mais tardio (664-323 a.C.): “O que você odeia que seja feito a você, não faça aos outros.”

A forma proibitiva da Regra de Ouro, que na verdade é chamada de Regra de Prata, era um princípio muito comum na filosofia grega antiga. Tales de Mileto (624-546 a.C.) disse: “Evite fazer o que você condenaria que os outros fizeram.” De forma parecida, o filósofo pitagórico Sexto afirmou: “Não faça aquilo que não quer que aconteça com você.”

O retor e orador grego Isócrates (436-338 a.C.), deixou registrada a Regra da seguinte maneira: “Não faça aos outros aquilo que poderia te incomodar se fosse feito por eles.” O filósofo Platão (424-348 a.C.) narra o pensamento de seu mestre Sócrates a este respeito: “Tem sido demonstrado que ferir aos outros não é algo justo em lugar nenhum.”

Sidarta Gautama (563-483 a.C.), também conhecido como Buda, fez deste princípio um dos pilares da sua ética. Ele dizia: “Comparando-se aos outros considerando que assim como eu sou, eles são, e assim como eles são, eu sou, não se deve matar nem fazer outros matarem.”

Falando sobre a felicidade, afirma: “Aquele que enquanto busca a felicidade oprime com violência os seres que também desejam a felicidade, não vai alcançar a felicidade futura.” E ainda falando sobre violência e agressão, Buda sugere: “Não machuque os outros fazendo coisas que você mesmo acharia dolorosas.”

Já o Cristianismo apresenta Jesus dizendo: “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós a eles” em Mateus 7:12, e: “Assim como quereis que os homens vos façam, do mesmo modo lhes fazei vós também”, em Lucas 6:31. Mais adiante, em Lucas 10:27, diz: “Amarás (…) ao teu próximo como a ti mesmo”, sendo o próximo qualquer pessoa que precise de ajuda.

Assim como muitos outros ensinamentos cristãos, a Regra de Ouro é emprestada das escrituras judaicas. A mais conhecida é o Grande Mandamento que está em Levítico 19:18, onde se lê: “Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor.”

Este verso da Torá representa uma das diversas versões da Regra de Ouro, e pode ser considerada uma de suas versões escritas mais antigas. Ela possui uma extensão no mesmo livro, Levítico 19:34, que diz: “Como um natural entre vós será o estrangeiro que peregrinar convosco; amá-lo-eis como a vós mesmos; pois estrangeiros fostes na terra do Egito. Eu sou o Senhor vosso Deus.”

Quando perguntaram ao Sábio Hillel para que oferece uma síntese concisa de toda a Torá, ele respondeu: “O que é odioso para si mesmo, não faça ao seu próximo. Essa é a essência da Torá; o resto é apenas explicação.” (Talmud, Shabbat 31a) Já outro Sábio, Rashi, dizia: “Ama o teu próximo como a ti mesmo, pois o Rabbi Akiva disse que este é o grande princípio da Torá.”

A Regra de outro pode ser encontrada de forma implícita no Alcorão e de forma explícita nos ensinamentos de Maomé. Uma delas é a seguinte: “…e você deve perdoar e tolerar: você não gosta quando Deus te perdoa?” (Surah 24, v. 22) E outra: “Malditos aqueles… que quando têm algo a receber, exigem toda a quantia, mas quando têm algo a dar, entregam menos que o combinado.” (Surah 83, vv. 1–4)

Já no Hadith, a coleção de relatos escritos e orais de Maomé, encontramos o seguinte: “Ninguém entre vós realmente é um fiel até que deseja para seu irmão aquilo que deseja para si mesmo.” (An-Nawawi’s Hadith) E ainda esta passagem: “Faça para a humanidade aquilo que você deseja para si mesmo, então você vai se tornar um fiel.” (Sukhanan-i-Muhammad)

Nos volumosos ensinamentos de Samael Aun Weor também existem versões da Regra de Ouro, como esta: “Não guardes ressentimentos de teu próximo. Recorda que teu próximo tampouco é perfeito. Não sejas rancoroso nem vingativo. Amai, perdoai, beijai com amor a mão do carrasco que te açoita.” (A Mensagem de Aquário)

Outra passagem interessante do mesmo autor é a seguinte: “Devemos compreender a dor de nosso próximo. Todos vivemos de todos, todos necessitamos de todos, todos somos servos de todos. O problema de qualquer ser humano afeta muitas pessoas dentro de seu raio de ação. O problema de muitos afeta a todos.” (A Caridade Universal)

E como estas duas há inúmeras outras citações sugerindo a necessidade de exercer uma relação empática com o próximo de modo a melhorar as relações humanas, aprofundar o autoconhecimento e exercer o amor consciente. De fato, a Regra de Ouro é um princípio fundamental das religiões, mas mais que isso, da religiosidade do ser humano que compreende que para estar em comunhão com Deus é preciso antes estar em comunhão com seu próximo.

2 Respostas

  1. Graçamaria

    Me interessei pela matéria quando li o título. Comecei a leitura e fui ficando concentrada pois além de bem escrita, interessante, curiosa e um assunto que gosto muito. parabéns! Lerei outros.

  2. Oi Maria,

    Muito obrigado pelo seu comentário!

    Ficamos muito felizes que a matéria tenha sido útil. Com certeza você encontrará muitos outros temas no site que serão de seu interesse e que abrirão as portas para os Mistérios.

    Abraços Fraternos!
    Paz Inverencial!

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