Bem-vindo a Sociedade Gnóstica Internacional

15 jul 2012

Os Arcanos Maiores e a Jornada do Louco

Em muitos sistemas esotéricos de interpretação das cartas do Tarô, a carta do Louco é interpretada como uma espécie de protagonista de uma história contada através dos Arcanos Maiores, os quais constituem as etapas do caminho percorrido pelo Louco através dos grandes mistérios da vida e dos principais arquétipos humanos.

Este caminho é conhecido como a Jornada do Louco, e normalmente é utilizado como forma de introdução do significado dos Arcanos Maiores para os principiantes. Sem dúvida, a Jornada do Louco é uma das mais interessantes ferramentas oferecidas pelo Tarô para o conhecimento de si mesmo e o conhecimento da jornada da vida.

Como não poderia ser diferente, a Jornada começa com o Louco, a carta do personagem que representa todo aquele que dá início a qualquer jornada.

Ele é Louco porque sua alma simples se lança confiante e inocente numa jornada de desafios e sofrimentos. No começo de sua viagem, o Louco é espontâneo e está aberto ao novo. Seus braços estão abertos e sua cabeça inclinada para cima.

Ele está pronto para receber o que quer que apareça em seu caminho, mas também esquece do penhasco à sua frente. O Louco não reconhece os desafios e obstáculos que deverá atravessar enquanto avança para aprender as lições da vida.

Logo de início, ele encontra o Mago (1) e a Sacerdotisa (2), os quais representam o dualismo e o jogo de forças equilibrantes que constituem o mundo exterior. A compreensão rudimentar do mundo material que o Louco tem a respeito do universo material o faz classificar tudo em pares de opostos, como bom e mau, prazer e dor, tristeza e alegria.

O Mago representa o lado positivo, a energia ativa e o poder masculino do impulso criativo. Ele também representa nossa consciência, a força que nos permite causar impacto no mundo através da concentração da vontade individual. A Sacerdotisa é o lado negativo, a energia passiva e o poder feminino modelador. Ela representa o inconsciente, que provê o solo fértil no qual os eventos criativos podem nascer, sendo assim o potencial ainda não realizado, aguardando por um princípio ativo que a impulsiona à expressão.

Leia ainda:

Projeções Psicológicas e o Mito de Narciso
A Voz Suave e Silenciosa da Paz
Baralho de Tarô: Propaganda Soviética
Baralho de Tarô: Campos de Concentração

Os termos positivo e negativo não significam bom e mau. Estas são distinções humanas que não se aplicam ao Tarô. O Mago e a Sacerdotisa são absolutamente iguais em valor e importância. Os dois são necessários para o equilíbrio. Aquilo que vemos como sendo negativo pode muito bem ser a nossa sombra, mas sem ela não enxergamos a luz.

Diante dos contrastes da vida, o Louco vai crescendo e se tornando consciente do meio que o cerca. Como acontece com a maioria dos bebês, ele primeiro reconhece sua mãe, a figura quente e carinhosa que o alimenta e zela pelo seu desenvolvimento. Ele também reconhece a Mãe Terra, que o nutre e protege em um sentido mais amplo.

A carta da Imperatriz (3) representa a natureza e o mundo das sensações. É interessante ver como um bebê sente prazer ao explorar através do tato, do paladar e do olfato tudo o que o cerca. Ele parece nunca estar contente com as imagens e os sons que encantam seus sentidos. Este processo é bastante natural, e no início da vida o Louco desfruta da abundância fornecida pela Mãe Terra.

A próxima pessoa que o Louco encontra é seu pai na figura do Imperador (4), que representa a estrutura e a autoridade. Assim que o bebê vai deixando os braços de sua mãe, ele vai aprendendo que existem padrões no mundo, os quais devem ser respeitados. Os objetos respondem de modos previsíveis, os quais podem ser explorados. A criança experimenta uma nova forma de prazer, que advém da descoberta da ordem.

Além disso, o Louco encontra as regras. Ele aprende que sua vontade não é sempre a mais importante, e existem certos comportamentos que são necessários para o seu bem-estar. Certas autoridades irão reforçar quais são estes comportamentos. Estas restrições podem ser frustrantes, mas através da direção oferecida pelo pai, o Louco começa a entender seu propósito.

Eventualmente, o Louco se aventura para fora de sua casa, em direção ao mundo. Ele está exposto às crenças e às tradições que formam seu entorno cultural, e começa a sua educação formal. A carta do Hierofante (5) representa os sistemas de crenças organizadas que cercam e começam a informar a criança que está em desenvolvimento.

O personagem do Hierofante é aquele que interpreta os conhecimentos arcanos e misteriosos. Em geral, na carta do Hierofante vemos uma figura religiosa abençoando dois acólitos. Ele parece estar transformando os dois neófitos em membros da Igreja, mas muito embora esta imagem seja religiosa, ela é um símbolo para as iniciações de todos os tipos.

A criança vai sendo treinada em todas as práticas usuais de sua sociedade e assim vai se tornando parte de uma determinada cultura e visão de mundo. Ele aprende a se identificar com um grupo e descobre o que é o sentido de pertencimento. Ele aprende a gostar de aprender sobre os costumes de sua sociedade e mostra que é capaz de se adaptar a eles.

Mais tarde, de maneira inevitável, o Louco enfrenta dois novos desafios. Ele experimenta o impulso poderoso da união sexual com outra pessoa. Antes, ele se encontrava num estado de egocentrismo. Agora, ele sente a urgência pelo equilíbrio, o qual é retratado através dos Amantes (6), e é impulsionado para chegar e se tornar metade de uma parceria amorosa, ansiando por um relacionamento.

Neste ponto, o Louco também precisa tomar uma decisão sobre suas próprias crenças. Enquanto ele aprendia e crescia, o conformismo era mais que suficiente. Contudo, em algum momento ele deverá determinar seus próprios valores se quiser ser fiel a si mesmo. Ele começa a questionar as opiniões recebidas até então, e com reflexão elaborará sua visão de mundo.

Nesta altura, o Louco já se tornou um adulto, com uma forte identidade e um certo domínio sobre si mesmo. Através da disciplina e da força de vontade ele vem desenvolvendo um controle interno que lhe permite triunfar sobre seu ambiente. A carta da Carruagem (7) representa a identidade vigorosa que coroa os esforços feitos pelo Louco até o momento.

Nesta lâmina encontramos uma figura altiva, um comandante vitoriosamente cavalgando pelo seu mundo. Ele está visivelmente no controle de si mesmo e de todas as circunstâncias que o cercam. O sucesso assertivo do Louco demonstrado na Carruagem é tudo o que ele poderia desejar, o que lhe oferece certa satisfação. Esta sua confiança é típica da juventude.

Então, o Louco deve decidir o que este sucesso significa para ele em termos transpessoais. Ele olha para trás e medita sobre sua vida para traçar as relações de causa e efeito que o trouxeram a este ponto. Ele assume a responsabilidade por suas ações passadas, fazendo as pazes e assegurando um rumo mais honesto para o futuro. As exigências da carta da Justiça (8) devem ser cumpridas.

Este é um momento muito importante de decisão para o Louco. É quando ele está fazendo escolhas cruciais. Ele poderá permanecer fiel a suas idéias, ou poderá escorregar de volta para uma existência mais fácil e cômoda, a qual deterá as possibilidades futuras de crescimento.

Com isso, o Louco também descobre os atributos da tranquilidade, da paciência e da tolerância. Ele se dá conta que o comando de sua Carruagem deve ser temperada pela bondade e pelo poder suave de uma intervenção amorosa. Às vezes afloram as paixões intensas, especialmente quando o Louco pensa que já tem tudo, incluindo ele próprio, sob controle.

Tendo atingido o ápice do poder, o Louco começa a fazer perguntas de ordem espiritual. Ele parte em busca de respostas, não movido pela simples curiosidade, mas por uma necessidade profunda de descobrir porque as pessoas vivem apenas para sofrer e morrer. É o Eremita (9) quem representa a necessidade de encontrar a mais profunda verdade.

Então o Louco começa a olhar para dentro, tentando entender seus sentimentos e suas motivações. O mundo sensorial exerce menor atração para ele, e tem início a busca por momentos de solidão, longe da atividade frenética da sociedade. Com o tempo ele pode procurar um professor ou um guia que lhe dará conselhos e direção.

Depois de muita busca pela alma, o Louco começa a enxergar como tudo se conecta. Ele tem uma visão do design maravilhoso do mundo, de seus intrincados padrões e ciclos. A carta da Roda da Fortuna (10) é o símbolo do universo misterioso cujas partes trabalham em perfeita harmonia. Quando o Louco vislumbra a beleza e a ordem do mundo, ainda que brevemente, ele encontra algumas das respostas que estava buscando.

Às vezes, suas experiências parecem ser obra do destino. Um encontro casual ou um acontecimento milagroso começam o processo de mudança. Na seqüência dos eventos, o Louco pode reconhecer o destino que se desenha nesse ponto de transformação. Tendo vivo como solitário, ele agora se sente pronto novamente para a ação. Sua perspectiva é mais ampla, e ele se percebe dentro do grande esquema de um plano universal.

Seu senso de propósito está restaurado. Mas, com o tempo, a vida apresenta ao Louco novos desafios, e alguns deles causam sofrimento e desilusão. Ele enfrenta muitas ocasiões que o permitem usufruir da Força (11), a carta seguinte. As diversas circunstâncias o pressionam para que desenvolva a sua coragem e a sua determinação para continuar apesar dos contratempos.

Agora o Louco pode seguir adiante. Ele está determinado a realizar sua visão, mas percebe que a vida não é tão facilmente domada. Cedo ou tarde, ele encontra a sua cruz pessoal, uma experiência que parece ser muito difícil de suportar. Este desafio esmagador o humilha, até que ele não tenha mais escolha senão desistir e deixar que as coisas sigam seu rumo.

Num primeiro momento, o Louco se sente derrotado. Ele acredita que sacrificou tudo, mas é então que das profundezas de sua alma ele descobre uma verdade surpreendente. Ele percebe que quando abandona a sua luta pelo controle, tudo começa a funcionar como deveria. Ao tornar-se aberto e vulnerável, o Louco descobre um apoio milagroso de seu interior. Ele aprende a se render às suas experiências ao invés de combatê-los, e isso lhe traz uma alegria surpreendente.

Resignado, ele se integra ao fluxo da vida. É quando o Louco se sente suspenso em um momento atemporal, livre das urgências temporais e das pressões cotidianas. Na verdade, o mundo para ele virou de cabeça para baixo. Ele está Enforcado (12), exatamente como na lâmina seguinte, aparentemente martirizado, mas na verdade sereno e na mais completa paz.

Depois desta visão, o Louco começa a eliminar velhos hábitos, cortando as partes não essenciais, pois agora ele aprecia os fundamentos da vida. Ele passa pelo encerramento de muitos processos antigos, e pelo descarte dos infrutíferos. Neste processo ele sente que parece morrer, pois esta é a carta da Morte (13).

Quem morre na verdade é a sua identidade obsoleta, de modo a permitir o crescimento de uma nova. Às vezes, essa mudança inexorável parece estar esmagando o Louco, mas ele acaba se levantando para descobrir que a morte não é um estado permanente, mas simplesmente uma transição para uma forma nova e mais gratificante da vida.

Desde que se tornou o Eremita, o Louco vem oscilando freneticamente para frente e para trás, como em um pêndulo emocional. Agora, ele percebe a estabilidade equilibrante da Temperança (14) . Ele descobre o verdadeiro equilíbrio, pois ao experimentar os extremos, ele foi capaz de apreciar a moderação.

Neste trajeto, o Louco combinou todos os aspectos de sua alma em um todo centrado que expressa a saúde e o bem-estar. Os anjos presentes na carta da Temperança são graciosos e suaves quando comparados ao poderoso mas rígido comandante presente na lâmina da Carruagem.

Até aqui, o Louco conquistou a sua saúde, a sua paz de espírito e a sua compostura graciosa. Aparentemente, ele não precisa de mais nada. No entanto, o Louco é corajoso o suficiente para continuar a perseguir os níveis mais profundos do seu ser. E esta atitude o leva a estar cara a cara com o próprio Diabo (15).

Diferente do que possamos ter aprendido, o Diabo não é uma figura malévola e sinistra que reside fora de nós. Ele é a própria ignorância e a desesperança que em algum momento se manifesta em nós. As atrações sedutoras do mundo material nos ligam tão fortemente aos objetos e às pessoas, que muitas vezes nem percebemos que nos tornamos seus escravos.

Nossa vida é um espectro muito limitado de experiências, e permanecemos por muito tempo ignorando o mundo glorioso que é a nossa verdadeira herança. Na carta do Diabo, há um casal acorrentado, porém resignado e contente com esta situação. Eles jamais alcançarão a liberdade se não reconhecerem a sua própria escravidão. Eles se parecem com os Amantes, mas não sabem que seu amor está limitado ao aspecto material.

Para se libertar do Diabo, o Louco precisa de uma mudança súbita, a qual é representada pela Torre (16). Esta é a carta da fortaleza do ego que cada um de nós tem construído em torno de sua alma. Esta fortaleza é cinza, dura e fria, e apesar de parecer servir como proteção, ela é na realidade uma prisão.

Às vezes, apenas uma crise de proporções monumentais pode gerar energia suficiente para quebrar as paredes da Torre. Nesta carta vemos o raio do discernimento colidindo com um edifício. Ele expulsa os ocupantes que parecem estar caindo para a morte. A coroa indica que eles já foram governantes orgulhosos, mas agora são humilhados por uma força muito maior do que eles mesmos.

Depois deste processo de destruição, o Louco é preenchido com a serenidade. As belas imagens que aparecem na carta da Estrela (17) atestam essa tranqüilidade. A mulher ali retratada está nua, pois sua alma não está mais escondida atrás de um disfarce qualquer. As estrelas radiantes brilham no céu sem nuvens, que serve como um farol de esperança e inspiração.

Neste momento o Louco é abençoado com uma confiança que substitui completamente as energias negativas do Diabo. Sua fé em si mesmo e no futuro é completamente restaurada. Ele está repleto de alegria e seu desejo é compartilhar seu sentimento de maneira generosa com o resto do mundo. Seu coração está aberto e derrama livremente seu amor. Esta paz que vem depois da tempestade é um momento mágico para o Louco.

Essa calma perfeita só é atrapalhada pela sua vulnerabilidade às ilusões da Lua (18). A alegria do Louco é um estado sentimental, e suas emoções, sejam elas negativas ou positivas, ainda não estão sujeitas à clareza mental. Em sua condição de sonhador, o Louco é suscetível à fantasia, à distorção e à uma falsa imagem da verdade.

Mais ainda, a Lua é uma grande estimuladora da imaginação criativa. Ela abre o caminho para pensamentos que podem não estar de todo em acordo com a realidade, mesmo que sejam muito belos e e encantadores. Contudo, das profundezas do inconsciente ainda podem surgir medos muito profundos e ansiedades. Essas experiências podem fazer o Louco se sentir perdido e confuso.

Somente a clareza lúcida do Sol (19) é que pode direcionar a imaginação do Louco, pois a luz que emana do astro rei é capaz de brilhar em todos os lugares escondidos. Ela é que dissipa as nuvens de confusão e do medo. O Sol ilumina e permite ao Louco sentir e compreender a bondade do mundo.

Agora, ele desfruta de uma energia vibrante e entusiástica. Na carta do Sol, o Louco é a criança nua que se dirige alegremente para enfrentar um novo dia. Nenhum desafio é demasiado assustador perante a vitalidade radiante do Louco. Ele se envolve em grandes empreitadas e atrai para si tudo o que precisa. Ele é capaz de perceber sua própria grandeza.

Seu falso ego tem sido enfraquecido, permitindo que sua consciência radiante pudesse se manifestar. E assim ele descobre que a alegria, e não o medo, está no centro da sua vida. Ele perdoa a si mesmo e aos outros, sabendo que sua verdadeira essência é pura e boa. Ele pode se arrepender erros do passado, e não esquece que eles foram causados pela sua ignorância de sua verdadeira natureza.

Ele está fazendo seu próprio Julgamento (20), uma espécie de acerto de contas consciente com sua vida. Desde que ele é capaz de se enxergar verdadeiramente, o Louco é capaz de tomar as decisões necessárias sobre o seu futuro. Ele pode escolher sabiamente quais coisas deverá valorizar, e quais serão descartadas.

Após esta nova introspecção, o Louco retorna ao Mundo (21), mas desta vez com uma compreensão muito mais ampla e completa, pois integrou todas as diferentes partes de si mesmo e alcançou a plenitude. Ele atingiu um novo nível de felicidade e realização.

Sua vida agora é plena e significativa, e seu futuro está cheio de possibilidades infinitas. Em consonância com sua vocação pessoal, ele se torna ativamente envolvido no mundo, partilhando seus dons e talentos e descobrindo que é capaz de prosperar em tudo.

Enfim, a Jornada do Louco chega ao fim. Através da perseverança e da honestidade, ele restabeleceu a coragem espontânea que trazia consigo no início de sua caminhada, mas agora ele se encontra plenamente consciente do seu lugar no mundo. Foi um longo ciclo, mas logo o Louco estará pronto para começar uma nova jornada que o levará a níveis cada vez maiores de compreensão.

3 Respostas

  1. É uma história que se resume as necessidades mais profundas do homem para se tornar um ser vitorioso na vida e entender o mundo e o que envolve o seu raio de vida, passar por todas as dificuldades, saber reconhece-las e tirar dela um pedaço e guardar dentro de sí como conhecimento profundo e empírico da situação, e cada vez que você guarda mais pedaços disso, você se torna mais maduro, mais forte e mais equilibrado.
    Está de parabéns pela analogia das cartas, uma fonte de conhecimento com exímio.

Deixe um Comentário