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1 jul 2012

É Melhor Ser Apóstata Que Ser Hipócrita

Há poucos dias atrás, aproveitamos a data em que os católicos comemoram o dia de Santo Irineu para relembrar as barbáries à que os gnósticos foram submetidos durante séculos. Não foram poucas as vezes em que diversas vozes gnósticas foram silenciadas por tratados mentirosos, perseguições espúrias e até os corriqueiros assassinatos realizados ou legitimados pela Igreja Católica.

Nossa contra-comemoração ao dia de Santo Irineu, autor da maior coletânea de mentiras a respeito dos gnósticos e sua conduta moral e religiosa, trazia uma imagem de um grupo de pessoas sendo queimado na fogueira, acompanhada por uma frase significativa a respeito dos hereges, dita pelo filósofo iluminista alemão G. E. Lessing, um dos maiores defensores da tolerância religiosa.

Muito simples e direta, a frase dizia que um herege é uma pessoa que enxerga com seus próprios olhos. Os hereges sendo queimados tinham ousado enxergar com os próprios olhos, e assim como Jesus, foram condenados à prisão e à dor do corpo, mas também à liberdade e ao êxtase do espírito.

De qualquer forma, a frase pareceu ser bastante oportuna, pois além de não ser ofensiva nem mesmo aos próprios carrascos, trazia uma metáfora elucidativa sobre o que é a Gnosis.

Enxergar com os próprios olhos corresponde à atitude gnóstica de conhecer a Deus e seus Mistérios de forma direta e autônoma, sem a necessidade de intermediários ou crenças naquilo que não se pode evidenciar com os olhos da alma.

Sempre que os gnósticos eram vilipendiados, caçados, torturados e brutalmente mortos pelas forças católicas, a justificativa era a prática da heresia, e a maior delas era a afirmação da possibilidade de salvação mediante o conhecimento de Deus ao invés da crença em Jesus. Por isso, nosso gesto consistiu numa mensagem que invertia o estereótipo católico do herege, destacando seu lado positivo.

Apesar da grande adesão ao nosso simples manifesto, houve quem se sentisse incomodado com a mera lembrança de fatos incontestáveis e não visse incômodo em retrucar, insinuando de maneira agressiva que aquele gesto configurava apostasia, algo considerado por muitos católicos como sendo o pior dos pecados, o qual leva a pessoa ao mais severo dos julgamentos.

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É muito fácil entender o que leva uma pessoa a utilizar o recurso de um construto teológico para, de forma inoportuna, segregar e condenar à danação eterna um grupo que possui uma perspectiva espiritual completamente diferente da sua, e que por este mesmo motivo jamais se sentirá afetado ou ameaçado por tais sentenças medievais absolutamente descontextualizadas.

No entanto, é preciso antes explicar o que significa ser um apóstata. Um apóstata é aquele indivíduo que comete apostasia, o que corresponde à desfiliação formal, o abandono ou a renúncia feita por uma pessoa à sua religião. Para os católicos, apostasia é muito pior que a heresia, sendo entendida como uma espécie de antônimo da conversão e do batismo.

Mais especificamente, os católicos consideram a apostasia como a rejeição do Cristianismo por um cristão. É um afastamento voluntário ou uma rebelião contra a os ensinamentos da Igreja Católica, o que resultaria na rejeição do próprio Cristo, no abandono da fé no Deus da Aliança que se manifesta de maneira mais completa na figura de Jesus Cristo.

Em suma, um apóstata é uma pessoa que rejeita a Igreja Católica e seus ensinamentos, que rejeita o Cristo proposto por esta mesma Igreja e que se nega a acreditar no Deus católico, preferindo não fazer parte de sua Aliança. Em tempos antigos, a punição para a apostasia podia ser infligida sobre a carne, mas hoje acarreta a excomunhão.

Na realidade, a apostasia é uma atribuição pejorativa que apenas faz sentido para aquele que segrega e agride, sendo completamente desprovida de sentido para quem sofre a segregação e a agressão. Seu potencial ofensivo perde completamente as forças quando atinge a fronteira que separa o catolicismo e as demais religiões, as quais não tem nada a ver com a Igreja católica, o Cristo católico e o Deus católico.

A agressão àquele que deixou de compartilhar dos mesmos valores de seu antigo grupo é um fenômeno social bastante conhecido, e se deve ao impulso protecionista dos que dependem da continuidade do grupo para a manutenção de sua identidade, cujos elementos emprestam dos valores do grupo por serem incapazes de conquistar uma própria.

Para a mentalidade dogmática católica – e de qualquer outra religião, inclusive a gnóstica – todo herege representa uma ameaça à coerência e à manutenção dos valores do grupo. Portanto, representa uma ameaça ao próprio grupo. Assim, tanto o herege como o apóstata, além dos castigos a eles impostos, servem para aterrorizar aos demais membros do grupo sob o pretenso motivo de preservar a salvação de suas almas, numa tentativa selvagem e desesperada de autopreservação.

Antigamente, esta método de blindagem teológica realizado pela Igreja Católica era bastante eficaz. Sangrento, mas eficaz. Mas com todas as mudanças tecnológicas e culturais promovidas nas últimas décadas, esta postura está condenada ao fracasso cada vez mais retumbante. Os dogmas perderão cada vez mais a sua força, e o universalismo, que inspira respeito e tolerância, avançará a passos cada vez mais largos.

É digno de nota que a Comissão das Nações Unidas para os Direitos Humanos considera que a desfiliação à uma religião – em outras palavras, a apostasia – é considerada um direito humano legalmente protegido pelo Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, do qual o Brasil é signatário. Este Pacto garante a liberdade tanto de adotar uma religião quanto de abandonar esta religião, reforçando que o lugar do conceito da apostasia é o ferro-velho teológico.

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Felizmente, cresce a cada dia o número de pessoas que cultivam uma mentalidade religiosa universalista, segundo a qual os deuses das religiões são apenas diferentes expressões temporais de uma mesma entidade divina, não existindo um Deus verdadeiro e outros deuses falsos, como sustentam as visões obsoletas da religiosidade.

Segundo esta mentalidade, as figura crísticas presentes nas mais diversas religiões – e também nas mitologias, na literatura, no cinema e outras formas de expressão filosófica, religiosa, científica e artística – são também simples expressões de um mesmo princípio crístico universal, mas condicionadas aos elementos culturais de determinado lugar e época.

Dia após dia, os olhos se abrem para levantar as cercas que separam as mentes e endurecem os corações. E as religiões, quando não são descartadas pela superficialidade materialista ou pela rebeldia ateísta, são cada vez mais vistas como manifestações necessárias porém limitadas da inteligência criadora e do caminho proposto para a alma, no interior da qual esta mesma inteligência navega pelas águas da existência.

A função das religiões é a de religar o homem à Deus, e não de afastar o homem do homem. A partir do momento em que segregam a humanidade e incitam a disputa pela supremacia de um conjunto de símbolos, ritos e crenças sobre outro conjunto, as religiões não passam de fronteiras que delimitam espaços, barreiras que suprimem encontros e silêncios forçados que constrangem diálogos.

Detrás destas fronteiras, barreiras e silêncios prenhes de ameaças, os prisioneiros do medo enxergam o sujeito livre para fazer suas próprias escolhas como alguém que renunciou ao Cristo, mas que somente renunciou ao jesus cristo católico, uma entre tantas representações do Cristo, o filho de Deus, o Verbo, o Logos, também conhecido como Krishna, Vishnu, Quetzalcoatl, Mitra, Dionísio, Hermes e tantos outros.

Este reconhecimento da universalidade do Cristo e dos demais princípios fundamentais das religiões e tradições místicas é motivo mais do que suficiente para que o apóstata se sinta absolutamente confortável com sua atitude. Consciente de que a verdade sobre Deus e seus Mistérios não é propriedade de nenhuma religião, mas o objetivo de todas elas, o apóstata é um sujeito verdadeiramente livre para experimentar a última realidade a que chamamos de Alá, Brahma, Tao, Deus, Júpiter, Odin ou Monã.

O apóstata medieval podia ser segregado, humilhado, perseguido e assassinado, mas o apóstata contemporâneo, não sendo uma cria de Satanás, nem uma alma condenada à danação eterna, é alguém que exerce seu direito de optar pela forma religiosa que melhor lhe convém e de deixar de lado um conjunto de crenças que não mais lhe servem.

Ele é um indivíduo que reconhece o mesmo que Madame Blavatsky, quem afirmava que nenhuma religião é superior à verdade, e o mesmo que Samael Aun Weor, quem sustentava que a Gnosis é a chama de onde surgem todas as religiões. A compreensão destes princípios jamais permitiria ao apóstata dos novos tempos continuar ligado à uma forma religiosa que não fosse condizente com sua mentalidade.

Do contrário, este indivíduo livre e consciente de que o valor da religiosidade está acima da religião, deveria se contentar em ser um hipócrita, ou seja, alguém que pretende ser uma coisa e não o é. A hipocrisia, infelizmente, é o estado de boa parte dos católicos – e de muitos religiosos de outras denominações – que não seguem os preceitos de sua religião, mas continuam se identificando como sendo seus filiados, seja por uma espécie de anemia espiritual ou por medo de se tornar um apóstata.

Este tipo de apostasia liberta o cristão para que seja judeu, o judeu para que seja islâmico, o islâmico para que seja budista, o budista para que seja evangélico, e o evangélico para que seja umbandista. E da mesma forma, liberta a todos estes para que sejam gnósticos, ou seja, alguém que reconhece como verdade inegável que os princípios fundamentais de sua religião são compartilhados por todas as demais religiões, apesar das diferenças culturais.

Além disso, a apostasia liberta o indivíduo da hipocrisia, este sim um dos piores erros que podem ser cometidos por quem busca o desenvolvimento espiritual, ao menos segundo os ensinamentos de Jesus. Afinal, não são os hipócritas os atadores de fardos nos ombros do outros, os amantes dos primeiro assentos, os devoradores das casas das viúvas, os limpadores do exterior dos copos, os sepulcros caiados e as serpentes e raça de víboras?

Na mitologia cristã elaborada por São Mateus, o personagem central Jesus afirma que os hipócritas são coadores de mosquitos que vivem engolindo camelos, pois identificam com muita facilidade os erros alheios mas são incapazes de identificar seus próprios. Pois é exatamente assim, coando mosquitos, que muitos católicos apontam seus dedos para a apostasia dos gnósticos, mas não percebem que engolem o camelo da hipocrisia.

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