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Tempo Pessoal | A Saga de Cronos

13 fev 2017

Tempo Pessoal | A Saga de Cronos

Cronos viajou à Suíça, especificamente ao cantão de Appenzell, para dialogar com engenheiro Urs Hämmerle, uma das principais autoridades de controle de qualidade.

Enquanto observava a beleza do Lago dos Quatro Cantões, através da janela do chalé de Hämmerle, Cronos, sem perder tempo, iniciou a conversação com estas palavras:

— A sobrecarga de informação foi a epidemia que assolou os anos 1990; portanto, quase tudo o que foi dito até agora sobre o valor do tempo é insuficiente para controlar o “dilúvio informativo” que está inundando também este novo milênio.

O senhor como especialista em controle de qualidade, pode responder-me se dedicar mais tempo ao cuidado do corpo é uma comodidade rara neste momento histórico da humanidade?

O engenheiro Urs Hämmerle assim respondeu:

― Nosso tempo moderno está infestado de rotinas e obrigações a eliminar, como por exemplo, nossa maior dedicação ao automóvel que a nós próprios. Deixamos exames e operações médicas sempre para depois, o que evidencia que não damos importância maior ao nosso cuidado pessoal e, em conseqüência, nossa própria saúde. Para conquistar qualidade de vida, teríamos que priorizar a dedicação de tempo ao nosso corpo: prepará-lo, treiná-lo, cuidá-lo; compreendendo as satisfações que nos daria se nos ocupássemos mais dele.

― Damos à nossa vida o lugar e o tempo que ela merece? Discorreu Cronos.

― No que diz respeito ao sensual, atualmente, não temos tempo nem para o prazer, porque os cálculos errôneos de lapsos e prazos, que temos feito em nossa vida, converteram-nos em vítimas de nossas próprias tensões e desilusões.

― E o que me pode dizer sobre o tempo para descansar? Discorreu Cronos.

― Em razão do ritmo frenético de nossas vidas, chegamos a um nível tão agitado que já não respeitamos as horas de sono, as pausas para o revigoramento nem o final de semana livre. Tristemente, estamos passando cheques contra nossa saúde.

― Penso que depois de muito trabalhar, as pessoas são merecedoras de bons momentos para o descobrimento, a aventura, ou simplesmente viajar em férias. Estar em outros lugares nos transforma, nos renova, mas requer muito tempo; a maioria das pessoas algumas vezes têm tempo, mas, para viajar pela Internet…

― Bem, se ao menos não se tem tempo de viajar, pode-se tê-lo para a família, não é? Diz Cronos.

― Tantos nossos filhos como nossos pais querem ocupar uma parte de nosso tempo. Exigem-no com reprovação ou com vergonha. Afinal de contas, nós o necessitamos tanto quanto eles?

― Imagino que nesta era chamada da informação, a sociedade tem muito tempo para ler e estar mais informada. Discorre Cronos.

― A realidade é outra. Chegamos a um estado paradoxal; sentimos vergonha e desejo ao ver esses jornais apenas lidos de relance; esses livros sem abrir, esses CDs sem ter sido ouvidos e esses DVDs sem ter sido assistidos. Quando passamos por uma livraria, ou uma casa de música, distanciamos nosso olhar para acalmar nossa inquietação de consciência. Temos nos resignado a viver em um grau de ignorância não assumida.

― E o que pensar sobre o direito de aprender? Expressa Cronos.

― Teoricamente todo cidadão tem direito ao aprendizado. Mas as circunstâncias são outras, e não exploramos nossas potencialidades a fundo, pois isso leva muito tempo.

― Gostaria de saber sua opinião sobre o tempo de criar. Comenta Cronos.

― O atual paradigma do trabalho o faz demasiado previsível e mecânico. Temos poucas oportunidades para expressar nossa criatividade. Todos gostariam de saber se trazemos um músico, um escritor, um pintor ou um inventor sob a pele, que à medida que passa o tempo, vai ficando mais velha.

― Ultimamente, venho participando de muitas pesquisas que enfatizam a necessidade da espiritualidade no trabalho. Pode-se prever um tempo para meditar? Falou Cronos.

― A beleza, a vida em si mesma, o cosmos, a natureza ou o zen, “vistas da janela do tempo”, chamam-nos e nos convidam a esta experiência. O tempo passa, e a “vida se afasta” de nós como um cometa sem que saibamos o que fazer. O inquisidor espiritual se estabelece com força. Gostaríamos de penetrar nos mistérios da Natureza e do Cosmos, se nos atrevêssemos e tivéssemos tempo para isso.

― Em uma sociedade massificante como esta, seria possível ter tempo para a solidão? Realça Cronos.

― Independentemente de alguma viagem de negócios, no ambiente protetor de um asséptico quarto de um luxuoso hotel, na maioria das vezes não sabemos aproveitar a solidão. Nas minhas viagens internacionais eu mesmo me faço estas perguntas: Como dizer-nos o que temos que expressar, se jamais nos encontramos a sós conosco mesmos? Na realidade, poucos desfrutam da vida solitária — mas, quem não gostaria de um pouco de solidão de vez em quando?

― O senhor está de acordo com a afirmação de que o maior desafio para o homem moderno está sendo o de viver em meio a um mundo de alto desenvolvimento tecnológico e baixo desenvolvimento humano, que resulta continuamente na dificuldade de conciliar trabalho e vida pessoal? Discursou Cronos.

― Por esse motivo, cada vez mais, as empresas necessitarão reservar tempo e dinheiro para ajudar o trabalhador a viver melhor em família e na comunidade. Neste choque contemporâneo, a tecnologia avançou e nos esquecemos da fonte geradora dessa mesma tecnologia, que é o próprio O tempo demonstrou que a felicidade promove produtividade e resultados excelentes, em qualquer nível hierárquico.

― O enigma que acompanha quase toda a vida do trabalhador é: o que fazer com meu tempo quando estiver aposentado? Alguns dizem: “Agora que estou aposentado, tenho tempo para fazer todas as coisas com as quais sonhei, mas me esqueci de quais são”. Enfatizou Cronos.

― Senhor Cronos, com base nestas últimas observações, o senhor me faz recordar algumas sábias palavras do Dalai Lama: Ser feliz não é um estado grandioso e eterno. Ao contrário, é uma soma de pequenos momentos luminosos, que a pessoa vai colecionando ao longo de sua vida.

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