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A Eternidade da Vida | A Saga de Cronos

17 out 2016

A Eternidade da Vida | A Saga de Cronos

Desta vez a cidade escolhida por Cronos foi Beirute, no Líbano, cujo cenário era a guerra civil, no ano de 1972.

Em meio à bombas, rajadas de metralhadoras, incêndio e gritos de dor, Cronos caminhava em atitude observadora. De repente, no interior de um edifício em ruínas, ele escuta os gemidos de uma pessoa. Serenamente, foi acelerando o passo e superando obstáculos até chegar ao lado de um oficial do exército do Líbano, que estava gravemente ferido. Depois de acalmá-lo um pouco, e consciente de que em qualquer momento este homem morreria, Cronos tomou a cabeça do militar em seus braços e perguntou-lhe:

Qual é o seu nome?

― Ali ― respondeu o ferido.
― Há quantos dias está a espera de ajuda?
― Não sei, porque perdi a noção do tempo.
― Para você, o que é o tempo?
― Quando estudava na Academia Militar sobre estratégia de guerra, impressionou-me uma frase de Napoleão, que tomei como guia de minha carreira de oficial: “Não importa quantas vidas foram perdidas pelo Exército e a quantidade de recursos perdidos pelo Tesouro, o que importa é quanto tempo perdemos”.

Cronos respirou profundamente, fez uma breve pausa e continuou:

― Ali, você tem consciência de seu estado físico?
―  Sim, sei que morrerei.
―  Então, continua admirando essa frase?
― Não. Durante os anos que sobrevivi à esta guerra absurda, meus sentimentos foram mudando.

Nesse momento, Ali guarda silêncio. Com muito esforço e dor, introduz sua mão esquerda no bolso direito, toma um papel ensanguentado e amassado e o entrega a Cronos, dizendo:

―  Este escrito foi minha luz nos momentos de medo e terror. Suplico-lhe que o leia em voz alta, para que estas sábias palavras acalmem minha dor.

Cronos tomou o escrito em suas mãos e fez a leitura:

Medirás a infinitude do tempo.
Ajustarás tua conduta e até dirigirás o caminho de teu espírito em concordância com as horas e as estações.
Farias do tempo uma corrente em cuja onda te sentarias para vê-la passar.
Contudo, o eterno em ti, sabe da eternidade da vida.
E o tempo não é por acaso, como o amor, indivisível e contínuo?
Mas, se em teu pensamento deves medir o tempo em etapas, que cada etapa abranja todas as restantes.
E que o hoje acolha o passado sem nostalgia e o futuro com anseios.

(Kalil Gibrán)

Os olhos de Ali se fechavam pouco a pouco. E, aproveitando-se do pouco vigor físico que lhe restava, indagou:

― Cavalheiro, posso conhecer seu nome e sua origem?
― Meu nome é Cronos e minha origem… a Eternidade!
― Ali deu um grito que saiu fundo de sua alma. Cronos compadecido, perguntou:
― Está sentindo muita dor?
― Oh, Cronos, ― respondeu Ali―, neste momento não sofro em razão de minhas feridas, mas pela existência perdida nesse confronto fratricida. Agora, percebo que nesses anos violentos, não soube valorizar minha vida; e o pior de tudo é que me transformei em um instrumento exterminador de vidas, e agora pago pelas conseqüências.

Com voz pausada, Cronos expressou:

― Essa é a lei de ação e reação. Violência gera violência. Amor gera amor.

Ali, então, passou a sofrer as contorções da morte. À medida que sua dor e seu tempo de vida se esgotavam, ao longe, escutou o ressonar da voz de Cronos, dizendo:

― A morte é a volta ao ponto original da partida. Um homem é o que é sua vida; se o homem não trabalha sua própria vida, se não busca modificá-la, com certeza, está perdendo o tempo. O homem deve trabalhar sua vida para fazer dela uma Obra Mestra!

Continua…

1 Resposta

  1. Aramis S. H. Fernandes

    Nossa que texto bonito. Gostei muito. Obrigado por compartilhar, Fernando.

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