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A Enfermidade do Amanhã | A Saga de Cronos

16 jan 2017

A Enfermidade do Amanhã | A Saga de Cronos

Durante sua permanência no México, Cronos escutou reiteradamente comentários no sentido de que os latino-americanos são conhecidos por deixar tudo para amanhã. Intrigado e muito curioso por este fato, decidiu que seu novo destino seria a Venezuela.

Desta vez, o foco de seu trabalho seria conseguir uma entrevista com o senhor Miranda, um dos principais executivos da maior refinaria do país. O diálogo assim desenvolveu-se:

― No passado, ― disse Cronos ― François Rabelais escreveu o seguinte: Como poderei governar os demais, se não tenho domínio e controle sobre si próprio?

Considero que esta observação é o fundamento da tese que defende que o homem deve controlar-se ativamente, e na medida do possível, na maior parte de todo o seu tempo.

― Miranda respondeu: Não conhecia essa afirmação, mas estou de acordo com ela . Porém, considero baseado em minha experiência profissional, que é necessário que se faça uma distinção entre dois tipos de tempo: há um tempo que não está submetido a controle. Este tempo tem recebido várias denominações: tempo requerido, tempo sem controle, tempo imposto pelo cargo, tempo fixo e tempo de resposta. A última definição ― tempo resposta ―, considero como a mais apropriada, pois faz referência ao tempo que se consome, dando resposta às circunstâncias e às pessoas que se apresentam com suas exigências e problemas.

― E qual é a outra forma de tempo? Perguntou Cronos.

― Há um tempo que pode ser controlado pelo indivíduo, chamado também tempo controlável, tempo auto-imposto, tempo disponível e tempo discricionário. Também esta última denominação é a mais apropriada.

― O senhor, como utiliza seu tempo discricionário? Questionou Cronos.

― Para aproveitar o tempo discricionário e para avançar na realização de um projeto discricionário é necessário ter tempo para poder concentrar-se. A maioria das pessoas requer um tempo mínimo de uma e meia a duas horas para concentrar-se em um assunto complexo.

― O senhor possui algumas ferramentas para o enriquecimento deste tempo? Diz Cronos.

―  Sim. A primeira delas é o isolamento. Consiste em criar uma barreira para proteger-me das exigências empresariais durante períodos ilimitados de tempo. O método mais comum baseia-se em supervisionar e classificar toda comunicação recebida com a ajuda de minha secretária.

― Diante da tirania do tempo, considero que o isolamento não é suficiente. Interrompeu Cronos.

―  Acontece que eu desenvolvi outra ferramenta que chamo de retiro. A forma mais radical de isolar-se é separar-se do local de trabalho. O que busco é conseguir períodos de tempo sem interrupções, que utilizo para meditar mais profundamente sobre os milhares de problemas que se apresentam na empresa.

― Alguma vez pensou em Meditar…? Indaga ironicamente Cronos.

― Respondendo com um tom de nervosismo Miranda, diz: Isso é para os iogues!

― Com firmeza Cronos afirma: Sim, meditar.! O que ocorre é que algumas pessoas sentem medo dos períodos de meditação, porque não têm nem idéia sobre o que devem meditar e porque não querem escutar a Voz do Silencio… Diga-me, exercita alguma outra pauta de atividade?

― Miranda, rapidamente esclarece: A proteção de meu tempo ótimo. O tempo ótimo é essa hora do dia, quando a pessoa está mais viva e com os seus cinco sentidos afinados. É nesse período do dia ou da semana quando a pessoa pode desenvolver sua máxima concentração e sua maior criatividade. Esse tempo é precioso.

― Por que diz que o tempo é precioso? Perguntou Cronos.

― Porque o tempo vale ouro! Respondeu Cronos.

O senhor Miranda estava compenetrado em suas palavras e, sem prestar atenção à intencional interrupção de Cronos, e continuou:

― Os projetos e o tempo discricionários devem ser programados, serem possibilitados, durante  o tempo ótimo pessoal. Se o tempo ótimo do indivíduo é às primeiras horas da manhã ou no início da noite, este goza de uma vantagem, porque as exigências dos demais são mínimas nessas horas.

― E o que me pode dizer sobre a “enfermidade do amanhã”; nesta refinaria, existe este mal? Interpelou Cronos.

― Para a maioria de nossos funcionários, a procrastinação como é conhecida a “enfermidade do amanhã” provém de causas complexas, que provavelmente podem somente revelar-se num consultório de psicologia.

― O medo de fracassar seria uma dessas causas? Enfatizou Cronos.

― Os perfeccionistas frequentemente são procrastinadores. Tais pessoas desejam apaixonadamente fazer tudo às mil maravilhas, e quando enfrentam um desafio caem submetidos por grandes pressões. Os Seabees, esquadrão de renome durante a segunda guerra mundial, tinham o seguinte lema: “O que é difícil fazemos agora mesmo; o impossível demora-se um pouco mais”. Os Seabees não se ufanavam de fazer tudo à perfeição, mas de conseguir fazer as coisas.

― E qual sua opinião a respeito dos funcionários que vivem do medo em relação ao que devem fazer.

― Algumas pessoas jovens sofrem desse tipo de autoengano. Formam o grupo de procrastinadores que estão sempre preparando de antemão uma desculpa. Nunca fracassam porque nunca se comprometem. Nunca se duvida de sua “excelência” porque nunca fracassam. Podem continuar enganando-se a si mesmos, argumentando que teriam podido realizar maravilhas se tivessem “desejados”. Infelizmente, a reputação de tais procrastinadores sofrem as consequências da pobreza, pois rapidamente perdem credibilidade ante os demais. Seu comportamento é visto como particularmente imaturo.

― Nesta refinaria, há pessoas que dizem que este não é o momento adequado? Falou Cronos

― Sem exagero, eu diria que noventa por cento do nosso pessoal pensa e age desta maneira. Esse é o tipo de pessoa que realmente não crê que pode controlar sua vida e busca fatos externos para motivar-se. Tais funcionários podem atrasar o início de um trabalho até a chegada de uma data propícia, como uma segunda-feira ou o primeiro do mês. Abdicam do controle de suas vidas em favor do azar.

― Neste país com tradições de uso da magia, o senhor encontrou alguma poção milagrosa que possa curar a “enfermidade do amanhã”? Diz Cronos.

― Nenhuma poção mágica pode curar a procrastinação nem tampouco há vacina moderna alguma para preveni-la. A enfermidade é universal, mas não é necessariamente mortal.

Cronos, então, agradeceu a entrevista e despediu-se gentilmente do senhor Miranda com as seguintes palavras.

― O homem moderno luta com todas as suas forças para projetar-se no tempo e para colocar-se à frente das mudanças. Mas, esse objetivo é viável? Sim e não… Tudo depende das concepções e interpretações que se tenha em relação a essa riqueza que é o tempo.

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