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A Dança das Horas | A Saga de Cronos

30 jan 2017

A Dança das Horas | A Saga de Cronos

Na dança das horas que acompanhava Cronos, seu dançar interminável o levou a obter uma entrevista com a doutora Patrícia Martinez, chefe de gabinete de psicologia da Prefeitura de Buenos Aires, Argentina.

A doutora Patrícia chegou um pouco tarde ao compromisso marcado com Cronos. Sorrindo com pouca naturalidade e com a voz um pouco tensa, disse:

― Desculpe-me, mas acabo de sair de uma reunião nada produtiva, em razão do desperdício de tempo entre conversas superficiais e pouco objetivas. Reunião é somente para os profissionais do primeiro mundo que valorizam o tempo de uma forma mais dirigida.

― Pode-me dar um exemplo sobre este caso específico? — perguntou Cronos.

― O tempo é dinheiro, dizia Benjamin Franklin para dramatizar a importância do tempo, ao relacioná-lo com a medida mais comum de valor. A maioria das pessoas permuta seu tempo por um salário que lhe é necessário para sobreviver. A importância que o mundo ocidental dá ao progresso e ao crescimento é simbolizado pela imagem do tempo, representada por uma flecha que é atirada em linha reta, vinda do passado em direção a um futuro desconhecido. Para as pessoas de ação, que devem fazer uma escolha entre uma gama de possibilidades antes do vencimento de um prazo, o referido simbolismo é particularmente apropriado. A decisão é tomada, o passo se cumpre e passa.

― Quais são as conseqüências deste paradigma do tempo? Ressaltou Cronos.

― Logicamente, nada positivas. O pior de tudo isso é que as pessoas aturdidas pelo tempo padecem de uma insuficiência do mesmo para realizar uma pesquisa interna. Dominados durante longos períodos pelo “comportamento-resposta”, podem perder a noção de quais são suas crenças. Aos perder contato com seus valores e aspirações, estão impossibilitadas de iniciar mudanças fundamentais. Nunca enfrentam o futuro!

― Quer dizer que lhes falta fé no futuro? Destacou Cronos.

― O gasto do tempo agora é um investimento no futuro —  e às vezes é um investimento arriscado, pois se supõe que amanhã chegará e que a ação de hoje terá sua influência. É possível que as pessoas não façam planos porque fracassam quando pensam no futuro ou porque não concebem que este pode trazer algo de bom. Nas últimas décadas se escutava muita discussão entre políticos e empresários acerca do futuro, mas até há pouco tempo, a discussão era precedida de pouca meditação séria. Tenha-se presente a relutância em meditar sobre as implicações da poluição da atmosfera, rios, lagos e os oceanos.

― Essa atitude pode ser considerada como um medo da incerteza? Questionou Cronos

― Muitas pessoas dirigem seu olhar ao presente porque o futuro é demasiado incerto e, além disso, ameaçador. Toda pessoa tolera a incerteza até certo limite. Em geral, preferimos o conhecido — em especial, se é de nossa aceitação — ao desconhecido. Preferimos a ação, pela qual se obtenha resultados mensuráveis, ao intangível ou imensurável.

― E qual é o posicionamento das novas gerações que “têm tantas coisa a fazer… e o tempo voa”? Perguntou Cronos.

― A síndrome da falta de tempo contagia as gerações mais jovens de maneira sinistra. São crianças e jovens estressados, preocupados com o que vai acontecer depois, deixando passar por entre os dedos as delícias do agora. Tendo uma vida inteira pela frente, a juventude prefere “estancar-se”, optando pela lei da mínima resistência. Vivem em estado de urgência, como quem tem a certeza de que seu tempo de vida tenha expirado. O alienamento em relação aos próprios sentimentos é resultado da necessidade criada pela sociedade globalizada de ocupar a maior parte do nosso tempo produtivamente.

― Como psicóloga qual é a percepção que a senhora tem do tempo? Interroga Cronos.

― Como a grande mancha de tinta tão famosa no mundo da Psicologia, as pessoas se projetam a si mesmas sobre suas concepções do tempo. Por exemplo, para investigar um pouco sua personalidade, gostaria de propor dois exercícios sobre perspectivas do tempo. Qual das seguintes imagens se aproxima mais de sua concepção de tempo: um cavaleiro a galope ou um oceano silencioso e calmo?

― Eu associo o tempo à imagem de um oceano silencioso e calmo. Respondeu Cronos.

― Com que palavras o senhor melhor descreveria o tempo?

― Profundo, claro, ativo e eterno! Replicou Cronos.

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