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Santuários, Templos e Monastérios

1 fev 2017

Santuários, Templos e Monastérios

Segundo a cabala hermética, o universo fenomênico é a expressão material daquilo que transcende todas as ideias e formas, uma vez que a criação reflete um oceano de luz sem limites, modulado em diversas formas e graus de sutileza. Partindo desta concepção, enfatiza-se que o sagrado se encontra disperso em todo o mundo sem ser percebido, podendo-se compreender a afirmação do evangelho de Tomé, que insiste que o Reino de Deus se encontra dentro e fora do homem, disperso em todas as coisas, sem ser percebido em função da ignorância humana. Desta maneira, a conexão com o transcendente se dá no coração humano, por meio de um estado de consciência adequado e não pela mera presença em templos de madeira e pedra, ainda que estes cumpram um papel em todas as culturas ao longo da história.

Observando-se as mais diversas espiritualidades ao longo da história, percebe-se que todas estabelecem lugares de culto, quer ao ar livre quer em edificações, articulando o local sagrado ao mito que norteia dita crença, para torná-lo o centro de um movimento espiritual, um eixo para o mundo desta população. Embora a cabala hermética insista que sagrado se encontre em todas as partes e que todo lugar pode ser um foco de luz e de conexão espiritual, uma vez que o verdadeiro templo de deus se encontra no coração do homem, ela também aponta para a possibilidade do estabelecimento de centros de oração e prática mística. O paradigma mágico da cabala hermética insiste no papel da força da imaginação, da crença e da vontade como motor para a realização de prodígios e transformações interiores, mediante a formação de uma egrégora, que justifica a prática espiritual coletiva e a força de santuários estabelecidos.

Na tradição esotérica gnóstica samaeliana o estabelecimento de santuários remonta a suas origens, pois, já em suas primeiras obras, Samael Aun Weor menciona a consagração de santuários e, a práticas litúrgicas simples, assim como, a estudos coletivos. Com o crescimento do movimento gnóstico essas práticas ganharam complexidade, assim como as nomenclaturas envolvidas; desta maneira, este pequeno artigo visa apresentar as concepções relacionadas à prática coletiva que existia até 1977 nas escolas gnósticas samaelianas. Nesse sentido, parte-se da concepção que a experiência coletiva gnóstica se baseava na vivência dos santuários gnósticos, que poderiam estar enquadrados nas terminologias de templo, lumisial ou santuário; sendo este último termo uma designação genérica, enquanto o primeiro termo aponta para um santuário que fosse propriedade do movimento gnóstico e o segundo para um santuário provisório, em propriedade alugada ou emprestada para este fim.

No que tange a sua prática esotérica, os santuários gnósticos mostravam-se destinados ao trabalho ordinário dos iniciados, nos quais os mesmos se nutriam espiritualmente em sua vivência coletiva; em contrapartida, para trabalhos específicos, vinculados à comunidade gnóstica como um todo, havia um templo de mistérios maiores, o Summum Supremum Sanctuarium (SSS), localizado nas montanhas da Serra Nevada na Colômbia. O nome deste templo remontava à tradição rosa-cruz, uma vez que a sede internacional da Fraternidade Rosa-Cruz Antiga se chamava Summum Supremum Sanctuarium de  Berlim, a então residência do mestre Huiracocha. A tradução do nome deste templo na Serra Nevada, o “Sumo Supremo Santuário”, aponta para o mesmo como um eixo dos demais santuários, que dele dependiam, pois ele era tido como um santuário maior, no que se relaciona a sua importância, concebido para trabalhos específicos dos quais os santuários dependiam e se nutriam espiritualmente.

Cabe ainda uma nota histórica sobre os trabalhos especiais praticados no SSS, para que não haja mistificação a seu respeito. Sabe-se oficialmente de três tipos de trabalhos realizados neste templo, um feito pontualmente e dois, sazonalmente.  O primeiro tipo de trabalho mencionado  foi o de advento do logos Samael no iniciado Aun Weor, algo realizado uma única vez, em 27 de outubro de 1954 por um grupo de iniciados. Quanto aos dois outros tipos de trabalhos aludidos anteriormente, temos as cadeias prolongadas, realizadas com propósitos específicos frente a certas situações pontuais, e temos a realização de missas nas festividades maiores do gnosticismo samaeliano. As festividades maiores, nas quais o templo era aberto, ocorriam em 4 de fevereiro (celebrando o início da Era de Aquário), quintas e sextas-feiras santas (celebrando a Paixão e Morte de Jesus Cristo), 27 de outubro (celebrando o advento do Logos Samael) e 24 de dezembro (celebrando o nascimento de Jesus Cristo).

Apesar de seu nome pomposo, este santuário nasceu como uma simples sala escavada no flanco de uma montanha e manteve a sua simplicidade, mesmo quando a construção ganhou sua forma definitiva de alvenaria, reforçando a concepção de que a sacralidade se encontra em todos os lugares e que a força do templo advém da mescla da imaginação, crença e vontade; uma vez que estas foram capazes de gerar uma poderosa egrégora neste local, que foi capaz de alimentar espiritualmente um movimento inteiro. A prática deste local era guiada por diretrizes estritas e pontuais e, desta maneira, como foi dito acima, o templo era aberto somente em certas ocasiões ao longo do ano, nas chamadas festas maiores do gnosticismo, e também para a realização de trabalhos mágicos especiais.  Reforça-se que, apesar de haver peregrinações espirituais a este local, nele não havia a dinâmica de comportar grandes eventos periódicos, tais como os congressos que, quando surgiram, passaram a se dar em salões de hotéis.

Apontada estas características e as diferenciações entre templos e lumisiais, cabe ainda ressaltar um terceiro tipo de santuário que existiu no gnosticismo samaeliano até 1977, estes eram os chamados monastérios gnósticos. Estes consistiam em santuários de propriedade do movimento gnóstico em que havia a formação missional nacional e internacional sob a direção de um responsável, denominado abade, que presidia as atividades deste local. Diferentemente do SSS, que era um monastério e tinha a direção de um abade, os demais monastérios existentes até e então não eram mencionados como templos de mistérios maiores e não possuíam templos subterrâneos; senão que eram templos (santuários de propriedade do movimento gnóstico) e centros de formação de missionários gnósticos, nacionais e internacionais. Até o momento do desencarne de Samael Aun Weor havia somente três monastérios em funcionamento, o mencionado SSS na Colômbia, o Quetzalcoatl em Guadalajara no México e o Kutumí em Buenos Aires, Argentina; sendo estes dois últimos propriedades urbanas. Cabe mencionar aqui que, em 1977 havia o projeto de se construir um monastério em La Grita, Venezuela, que se chamaria Lumen de Lumine, nos moldes dos já existentes, mas que teria um templo subterrâneo conforme as suas possibilidades.

Desta maneira, assinala-se que a dinâmica coletiva do movimento gnóstico até 1977 centrava-se na prática individual e na frequência ao seu respectivo santuário, que poderia ser denominado templo ou lumisial, no qual se estudava o conhecimento gnóstico e se praticava coletivamente. Paralelamente havia três monastérios responsáveis pela formação de missionários gnósticos nacionais e internacionais, um no sul da América do Sul (Argentina), um bem ao norte da América do Sul (Colômbia) e um na América do Norte (México).  Ressaltando-se que o SSS também se apresentava como o coração espiritual do movimento gnóstico, articulando os demais monastérios e santuários do globo sob sua direção, sendo considerado um templo de mistérios maiores. Este, como anteriormente dito, consistia em um santuário subterrâneo no sopé de uma montanha em uma propriedade rural nas montanhas da Colômbia.

Neste momento havia também uma Sede Administrativa, uma propriedade urbana situada na Colômbia, na cidade de Ciénaga, em nome do Movimento Gnóstico, e uma Sede Patriarcal, que consistia na residência de Samael Aun Weor, uma casa alugada nos subúrbios da Cidade do México. Ambas com um caráter administrativo sem quaisquer papéis místicos. Por fim, demonstra-se a dinâmica simples dos santuários gnósticos até 1977, que não se pretendiam suntuosos, mas locais para a geração de força espiritual para seus adeptos, segundo as premissas do hermetismo, articulando imaginação, crença e vontade. Dentre as diversas anedotas relativas à vida de Samael Aun Weor, há uma que menciona, que ao transitar pela Cidade do México e contemplar a catedral desta cidade ele afirmou que chegaria o dia que o Movimento Gnóstico possuiria grandes catedrais como aquela, mas já não possuiria nada de conhecimento gnóstico. Desta maneira, ressalta-se que a crítica não apontava para a edificação de santuários, mas para uma deformação na egrégora que eles articulariam que estariam desviadas de seus ideais originais.

O conhecimento gnóstico samaeliano é extremamente tributário à obra de Ouspensky e esta apresenta reflexões sobre a prática coletiva e a experiência do quarto caminho, que coadunam com a mencionada anedota de Samael Aun Weor. As reflexões deste autor russo afirmam que uma escola pertencer ao quarto caminho e comportar ensinamentos realmente revolucionários é algo circunstancial, vinculado à prática coletiva do grupo e à clareza de seus ideais e concepções. De forma que ela pode estar vinculada em dado momento ao quarto caminho, para depois distanciar-se do mesmo. Segundo a linguagem do paradigma hermético, um santuário apresenta um aspecto positivo enquanto sua egrégora for saudável, ou seja, alimentada com crenças, imaginações e vontades saudáveis, de equilibrado progresso espiritual, do contrário ela assume um papel negativo, vampirizando seus membros, incutindo-lhes o medo supersticioso e o fanatismo místico. E, nessa perspectiva que, deve-se entender a concepção de catedrais gnósticas desprovidas de gnose, ou seja, santuários que não guardam mais em si os ideais elevados e sinceros para os quais foram edificados; senão que se alimentam de imaginações e vontades distorcidas, que olham para uma direção equivocada e que não conduzirão a seus adeptos à experiência mística do verdadeiro templo, o coração.

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