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Reflexões da Sabedoria Cognoscente

30 jun 2017

Reflexões da Sabedoria Cognoscente

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A seguir, ela olhou para baixo e viu o poder-de-luz nas partes abaixo; ela não sabia que era o do poder-tríplice Autocentrado, mas pensou que vinha da luz que havia visto desde o princípio no alto, que era do véu do Tesouro de Luz. E pensou consigo mesma: irei àquela região sem meu par (sizígia) e tomarei a luz fazendo dela eons-de-luz para mim, para que eu possa ir para a Luz das Luzes, que está no ponto mais alto do Alto.  Ela desce aos doze eons e daí para o caos.

Pensando assim, partiu de sua própria região, o décimo terceiro eon, e desceu aos doze eons. Os regentes dos eons perseguiram-na, ficando furiosos com ela, porque havia pensado em grandeza. E ela saiu também dos doze eons e veio para as regiões do caos e aproximou-se daquele poder-de-luz com cara de leão para devorá-lo. Porém todas as emanações materiais do Autocentrado cercaram-na, e o grande poder-de-luz com cara de leão devorou os poderes- de-luz de Sophia, purificando sua luz e engolindo-a, sendo sua matéria lançada no caos. Existia no caos um regente com cara de leão, metade do qual é fogo e metade escuridão, que é Ialdabaoth sobre quem vos falei muitas vezes.

Quando isto aconteceu, Sophia tornou-se tremendamente fraca, e aquele poder-de-luz com cara de leão começou a trabalhar para retirar de Sophia todos seus poderes- de-luz, enquanto todos os poderes materiais do Autocentrado cercaram Sophia, atormentando-a. Pistis Sophia, lançando grandes gritos, lamentou-se à Luz das luzes, que ela havia visto desde o princípio, em quem ela tinha tido fé, pronunciando este arrependimento: O primeiro arrependimento de Sophia. Ó Luz das luzes, em quem acreditei desde o princípio, ouve agora, então, ó Luz, o meu arrependimento. Salva-me, ó Luz, pois maus pensamentos penetraram em mim.

(O Primeiro Livro de Pistis Sophia)

ESTUDANTE: Mestre, esse é o Mito de Pistis Sophia, um dos sagrados textos gnósticos!

MESTRE: Sim Hélêna, em tua boca é um Mito; mas em teu íntimo tornar-se-á VERDADE.

Quantas vezes nos vemos repetindo mentalmente cenas do passado, lamentando não havermos tido mais sabedoria para ter agido de forma consciente, e assim nos deixamos atormentar e guiar por maus pensamentos? Pergunta introdutória que traz em si uma grande dose de reflexão aos que iniciam o trabalho em direção à libertação.

Ao estudante que ainda não teve contato com o Primeiro Livro de Pistis Sophia importa saber que Pistis significa “boa fé”, “confiar”, “confiabilidade”. A palavra é de origem grega (Πίστις) e vinha sempre acompanhada das personificações de esperança, prudência e caridade, associadas com honestidade e harmonia entre as pessoas. Assim, Pistis, como Fé, realiza em sua sabedoria toda uma obra.

A palavra Sophia, também de origem grega (σοφία), significa “sabedoria”. Sophia é representação da Sabedoria, dizem os gregos e as escrituras bíblicas. Em fontes mitologias gnósticas Sophia é uma emanação do Supremo – o Deus Incriado -, a consorte do Deus Eterno ou ainda em outro mito (Texto sobre a origem do mundo, Biblioteca de Nag Hammadi) o desejo de Pistis, a Fé.

A Consciência é termo que encontra sua origem no latim “contientïa” – significando com conhecimento. O termo consciência reveste-se de um sentido mais complexo por relacionar-se com o conhecimento ou a percepção. A consciência é algo muito Nobre que além de confirmar os estímulos que a nossa volta apontam para a existência de um fenômeno, liga-se também a questões morais e noções que implicam o reconhecimento da realidade ao entorno do observador, o “nous”.

Para o gnosticismo a consciência plena é um dos atributos da alma desenvolvida.

Os mitos sobre Pistis e Sophia (Pistis Sophia) possuem informações valiosas ao estudante gnóstico que busca conhecimento devendo interpretar tais mitos utilizando-se das técnicas de meditação com o fim de criar a experiência direta do real que desvela-se conforme o trabalho e aprofundamento individual.

Há o mito gnóstico onde Sophia é a própria consorte do Inefável e também o mito que Sophia é criação direta da Pistis (fé). Existem diversos mitos que utilizam o mesmo nome para exemplificar a criação do mundo e a queda da alma. Nesse sentido o estudante deve ficar atento para saber que o conhecimento profundo de cada um desses mitos e seus Mistérios não cessa numa só experiência ou meditação, nem mesmo somente nas fontes gnósticas sagradas.

Todas as fontes que citam Pistis e Sophia são necessárias para traçarmos um paralelo valioso entre a verdade da existência e a nossa verdade existencial. A busca dura vários anos ou vidas e o prêmio prometido na recompensa de quem alcança a realização da Grande Obra é o retorno ao Pai (O Inefável) trazendo consigo o conhecimento do experimentado pela pluralidade da unidade (o espírito) consciente (portador de uma alma imortalizada).

O que teria motivado a Sophia a criar o Demiurgo (semi-deus ignorante para os gnósticos)?

Quando analisamos o mito Gnóstico da criação a questão intrigante é que Deus não seria capaz de contemplar a Si mesmo. Por este motivo emana o pleroma e dá origem à criação, podendo, Ele mesmo, por meio desta sua criação, contemplar a sua própria Beleza e Inefabilidade – torna-se Conhecedor de sua Infinita Sabedoria e realiza-se nela.

A busca do autoconhecimento e autorrealização parece ser então, por si, a razão da Criação. Parece ser simples demais e mais adiante veremos que autocontemplar e autoconhecer não são trabalhos simples ou mesmo divertidos. Cerca-se o aspirante de dolorosas descobertas, caminhos perigosos e muitas vezes obscuros – como nossa mente o é – e não é sem motivos que foi dito: “De mil que me buscam, um me encontra! De mil que me encontram, um me segue! De mil que me seguem, um é meu!”.

O estudo dos mitos deve vir com questionamentos que, não raros, levam a experiência de sentimentos de angústia – sentimentos inerentes da falta de autoconhecimento e também da surpresa do autoconhecer. A ignorância traz a dor e uma busca desenfreada que muitas vezes torna-se apressada por impressões da pessoalidade da personalidade. Nesse contexto observa-se a urgência no trabalho de despertar, mesmo assim deve-se fazê-lo com muita calma e orientação, senão caminhos obscuros e tendenciosos tomam a expressão de resultados indesejados. Por sorte alunos mais avançados, instrutores e Mestres podem auxiliar nessa busca. Perguntando exercemos o nosso amor pelo conhecimento, sob a vontade de trabalhar, liberando para ambos, estudante e consultado, porções de Luz valiosas, porções de conhecimento dos próprios Seres envolvidos.

Interpretando um dos mitos de Sophia, então a minha própria Sophia olha para o alto e contempla a maravilhosa e inebriante fonte divina que é o Deus Absoluto e, por um lapso momentâneo, penso em buscar em minhas próprias capacidades a beleza da criação perfeita do Único Deus, assim vacilo e deliro. Num breve momento Sophia desvia seu olhar para a direção oposta do Inefável, para baixo e identifica-se com o reflexo, o reflexo de si mesma – meu próprio reflexo -, mais profundo que isso, o reflexo obscuro, a sombra do Deus Inefável – uma luz falsa, um desejo de ser o próprio Incognoscível. Esquecendo-se de quem realmente é e daquele lugar (pleroma) maravilhoso em que se encontra Sophia fascina-se com a possibilidade de ser tão Inefável como Ele – criando tão Sagradamente e perfeitamente como Ele -, perdendo-se completamente de si mesma e de sua perfeição por ser uma criação Divina. Então, num último ato, Sophia entra em sonho profundo e age mecanicamente criando sem o Deus Absoluto. Assim, Sophia cria inevitavelmente o demiurgo, o semi-deus Gnóstico. Sophia criou seu próprio demiurgo na tentativa de criar a imagem e semelhança do Incriado – quisera minha Sophia não imitar ao Deus Absoluto em sua criação, pois fazendo-o criara o oposto do Deus Absoluto, criara a ignorância em sua própria limitação.

Quão ignorante somos nós que deixamos nosso lugar no pleroma e buscamos a criação da matéria? Ficamos presos momentaneamente a este mundo físico e identificados com a matéria – uma consequência de termos esquecido de quem realmente somos. Temos agido mecanicamente criando o nosso próprio demiurgo pessoal, o nosso próprio conglomerado de ignorância – entidade nefasta chamada Ego – sonho coletivo alimentando o real demiurgo. Vejam o quão nos afastamos do Divino e Absoluto, Deus, pois alimentamos nosso demiurgo diariamente quando não estamos em estado de vigília, quando não estamos conscientes e nos identificamos e nos fascinamos e sonhamos com o que não importa.

Então o que importa? O aqui, o agora, o presente momento é o que realmente importa.

Sophia cai, descendo a matéria que é fruto do fruto de ignorância, de sua criação. Desesperada Sophia tenta evitar a queda olhando o infinito de reflexos, o infinito abaixo de cada sombra, identificando-se e apegando-se a cada descida, inevitavelmente, despenca aos limites da sombra – o Caos infinito.

“Após a estrutura natural dos seres Imortais ser completamente desenvolvida através do Infinito, uma imagem chamada Sofia (Sabedoria) emanou de Pistis (Fé), porque ela tinha a vontade de criar um reino semelhante à Luz Preexistente. Imediatamente o desejo dela se manifestou, tomando a forma do firmamento, e tendo uma proporção inimaginável; situa-se entre os Imortais e os seres que vieram a existir depois deles, segundo o modelo das coisas superiores. Ela (Sofia) atua como um véu, separando os Reinos Eternos do universo que fora criado”. (Sobre a Origem do Mundo, O Texto Sem Título, Biblioteca Nag Hammadi)

MESTRE: …e mais um mito traz o significado da mesma Palavra, com um valor macrocósmico. Veja bem pequena Hélêna, tudo corresponde a um Mistério que a mente, sozinha, nunca decifrará.

ESTUDANTE: Sim Mestre, em meu ventre aquecido encontrei o caminho para o que é verdadeiro e pulsante. Acima estará o guia Imaculado pelo que a minha mente há de ser guiada.

2 Respostas

  1. Nínive Raquel

    Olá Francisco,

    Os mitos tem muito a nos oferecer. Que bom que pude ajudar.
    Abraços Fraternos!
    Paz Inverencial!

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