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10 jul 2012

Mitologia e Guerra nas Estrelas: Redenção e Ressurreição

Depois de enfrentar diversos obstáculos, chega uma das etapas mais fundamentais da jornada do herói. Num dos momentos mais dramáticos da mitologia, o herói precisa encontrar e se reconciliar com seu próprio pai. Reconhecer o pai é símbolo de conhecer a si mesmo e suas origens, e a redenção paterna não é outra coisa senão um elemento indispensável de maturidade.

No último filme da trilogia mais antiga, O Retorno do Jedi, vemos que Luke Skywalker usa um traje completamente preto, em contraste com as roupas claras do filme Uma Nova Esperança, o primeiro desta série. Através de suas roupas, Luke mostra que atravessou o período de iniciação, superando a fase da inocência, aceitando a negatividade existente dentro de si mesmo e decidindo lidar com ela.

Esta negatividade que ele agora reconhece dentro de si mesmo é a mesma que ele projeta na figura de Darth Vader, e por isso a reconciliação com seu pai concretizará a sua tomada de responsabilidade pelos seus próprios sentimentos e sua própria identidade.

A mais poderosa redenção presente na saga começa no momento em que Luke descobre que Darth Vader é seu pai, abre-se diante dele a possibilidade de uma escolha entre dois caminhos.

O primeiro consiste em ceder ao ódio e aos apelos do pai e, assim como esperam Darth Vader e o Imperador, ser inevitavelmente atraído para o lado negro da Força.

O segundo consiste em seguir os ensinamentos de Yoda e Obi-Wan Kenobi, não cedendo aos apelos de seu pai, e desta forma derrotar e destruir Darth Vader e o Imperador. Isso efetivamente quase acontece, pois Luke encurrala Darth Vader e o deixa completamente indefeso.

No entanto, Luke já é um herói bastante maduro e experiente, e isso o permite adotar um terceiro caminho. No momento em que tem a oportunidade de derrotar definitivamente seu pai e se converter ao lado negro da Força, ele tem uma atitude completamente inesperada.

Veja a Série Completa:

Mitologia e Guerra nas Estrelas: Parte 1
Mitologia e Guerra nas Estrelas: Parte 2
Mitologia e Guerra nas Estrelas: Parte 3
Mitologia e Guerra nas Estrelas: Parte 4
Mitologia e Guerra nas Estrelas: Parte 5
Mitologia e Guerra nas Estrelas: Parte 6
Mitologia e Guerra nas Estrelas: Parte 7

Ao decepar a mão de seu pai durante a última luta, assim como no filme anterior seu pai decepara a sua no filme anterior, a identificação entre os sofrimentos do pai e do filho gera uma epifania em Luke, no exato momento em que ele pode tomar o lugar de Darth Vader ao lado do Imperador e ser tomado em definitivo pelo lado negro da Força. Na mais absoluta serenidade, Luke desliga seu sabre de luz e decreta o fracasso de Palpatine.

Ainda sob o efeito da epifania que acabara de experimentar, Luke redimensiona a identificação com seu pai, fazendo com que ela seja deslocada do sofrimento pela mão decepada para a honra de ser um Cavaleiro Jedi. Esta atitude vai despertar a compaixão redentora no antes maligno Darth Vader, o que provocará a ressurreição que trará o falecido Anakin Sakywalker de volta à vida.

A salvação provocada por Luke acontece graças à sua ligação com seu pai. Livre de qualquer sentimento negativo que pudesse arrastá-lo ao lado negro da Força, Luke oferece a si próprio como sacrifício, da mesma maneira que o próprio Jesus Cristo. É através deste seu sacrifício que ele traz a salvação a seu pai, assim como o sacrifício de Jesus traz a redenção da humanidade.

Então fica evidente o papel messiânico de Luke Skywalker, um personagem pertencente à uma linhagem consagrada, que vem de uma origem humilde e acaba se sacrificando para redimir os erros alheios. Assim ele repete o tema cristão, que foi importado das Religiões de Mistérios da Antiguidade.

O caminho para o autoconhecimento requer que o indivíduo saiba de onde veio e quais são as suas origens. Este é o mesmo motivo presente na história de Ulisses e seu pai Laertes. Na viagem de volta à sua casa, Ulisses acaba se tornando seu próprio pai, e é somente após este momento da narrativa que Ulisses se torna maduro e sua jornada tem um fim.

Muito próximo da sua morte inevitável, Darth Vader pede a Luke que remova seu capacete para que pelo menos uma vez possa ver seu filho com seus próprios olhos. Esta atitude de enxergar com os próprios olhos e não mais através da máscara representa tanto a retomada de sua humanidade como o enfrentamento da morte.

Em uma das mais belas cenas da Ilíada, o herói Heitor toma seu filho nos braços momentos antes de ir para a batalha. Ele está usando seu capacete, e isso assusta a criança. Então, Heitor remove o capacete, beija o rosto da criança e olha bem no fundo de seus olhos para dizer que um dia os troianos dirão que ele é como seu pai, forte e corajoso, e até mesmo maior que seu próprio pai.

O último ato que Luke realiza para seu pai é queimar tudo o que resta de Darth Vader, incluindo suas roupas e seu capacete. No Episódio III, a Vingança do Sith, é possível ver que Anakin Skywalker tem sua humanidade queimada pela lava em Mustafar, enquanto que no fim do Episódio VI, aquilo que o caracterizava como máquina é queimado.

Em muitas narrativas mitológicas, os heróis mortos são queimados em uma pira. Quando o rei troiano Príamo recolhe o corpo morto de seu filho Heitor, ele o traz para casa para queimá-lo, de forma que os troianos possam lamentar sua morte de forma apropriada. Este ato reforça a honra e confere distinção ao herói, elevando-o da mesma maneira que a fumaça que ascende aos céus.

E assim o fogo que consome os restos mortais finalmente integra seu espírito ao restante do universo. Este símbolo da união com o todo também está presente no Episódio VI, quando Han Solo e Leia acabam finalmente formando um casal. Isso acontece quando eles estão em Endor, cercados pela natureza e em contato com este arquétipo da Grande Mãe.

Nos filmes que formam a saga de Guerra nas Estrelas, diversas cenas mostram os personagens se abraçando como forma de comemorar o reencontro da humanidade e o triunfo sobre os desafios. Ao longo dos Episódios aprendemos que não estamos sozinhos nesta existência, e que por isso precisamos aprender a cooperar se queremos sobreviver e enfrentar os obstáculos que a vida nos oferece.

O herói que começa a sua jornada na mais absoluta inocência, percorre os passos de uma jornada marcada pelo surgimento de obstáculos em escala diversa, que pouco a pouco permitem seu amadurecimento. Inúmeros companheiros se juntam à sua caminhada, oferecendo ajuda e suscitando novos desafios. Ao mesmo tempo, a maldade encarna em personagens que contrastam com seus valores, até que surge a batalha final e a reconciliação com suas origens, representadas pela figura do pai e pelo próprio universo.

Veja a Série Completa:


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