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7 jul 2012

Mitologia e Guerra nas Estrelas: Os Bobos da Corte

Outra espécie de companhia do herói ao longo de sua jornada é aquela formada por seguidores fiéis, mas por vezes atrapalhados, esquisitos e até mesmo tolos. A presença deste tipo de personagem nas narrativas mitológicas ajuda a quebrar o padrão emocional de tensão e drama que marca a aventura do herói e seus demais companheiros, trazendo alívio cômico de tempos em tempos.

As clássicas figuras cômicas e satíricas da mitologia, da literatura e do cinema são representados em Guerra nas Estrelas pelos robôs R2D2 e C3PO, que proporcionam em sua maioria cenas engraçadas ou aliviando a carga dramática de episódios secundários de conflito. Normalmente, a trama é formada por elementos tão intensos que, na ausência destes palhaços míticos, o leitor ou espectador se sentiria oprimido.

Em contraste com a coragem que o herói vai desenvolvendo ao longo de sua viagem, os escudeiros transmitem de maneira estereotipada e engraçada a covardia típica do indivíduo comum, que não é chamado à aventura.

Como os mitos são ambientados em lugares estranhos para os leitores ou espectadores, a presença de tipos como R2D2 e C3PO serve para criar uma atmosfera de conforto e descontração, essencial para o envolvimento na trama.

Além disso, eles parecem não se envolver diretamente ou voluntariamente nas ações desenvolvidas pelos demais personagens, como se estivessem apenas observando, assim como os espectadores.

É através de R2D2 e C3PO que o leitor ou o espectador ingressam na trama, pois ainda que aspiremos ser como os heróis e seus companheiros que enfrentam bravamente os mais temíveis obstáculos em busca dos mais preciosos ideais ou tesouros, somos mais parecidos com estes dois robôs, pois carregamos as dúvidas, a hesitação e o pessimismo de C3PO, os quais combinamos com o voluntarismo, o deslumbramento e a inocência de R2D2.

De certa forma, eles exercem a mesma função do Coro no antigo teatro grego. O Coro era formado por um grupo de pessoas trajadas de forma homogênea, nem um pouco individualizadas, que tinham a função de realizar comentários da ação dramática através de uma voz coletiva. Os membros do Coro eram os responsáveis por oferecer relatos, informações e dicas que ajudavam o auditório a acompanhar o espetáculo.

Veja a Série Completa:

Mitologia e Guerra nas Estrelas: Parte 1
Mitologia e Guerra nas Estrelas: Parte 2
Mitologia e Guerra nas Estrelas: Parte 3
Mitologia e Guerra nas Estrelas: Parte 4
Mitologia e Guerra nas Estrelas: Parte 5
Mitologia e Guerra nas Estrelas: Parte 6
Mitologia e Guerra nas Estrelas: Parte 7

Em toda a saga de Guerra nas Estrelas vemos cenas nas quais enquanto o personagem principal está desenvolvendo uma determinada ação, os robôs estão fazendo comentários acerca das emoções dos envolvidos e da expectativa que antecede a ação. Eles servem como uma ponte tanto para o entendimento da sequência narrativa como para o envolvimento emocional.

Outro personagem que cumpre uma função parecida com a dos dois robôs é o anfíbio Jar Jar Binks, uma criatura extremamente atrapalhada e irresponsável, que se mete em confusão a todo momento. Ele apresenta uma inocência infantil que às vezes chega a ser irritante, fator que contribuiu para a sua rejeição por grande parte dos fãs de Guerra nas Estrelas.

Na trilogia que tem Anakin Skywalker como herói principal, Jar Jar Binks é apresentado como um pária entre os Gungans, um sujeito inútil e que não merece viver entre os seus iguais. Aos poucos ele vais assumindo responsabilidades, ajudando o exército de Naboo a vencer a batalha contra a Federação do Comércio e passando a fazer parte da comitiva da senadora Padme.

Mas a verdade é que ele nunca amadurece realmente. Quando ocupou o cargo de Representante de Senador, foi manipulado por políticos mais experientes e acabou sugerindo a atribuição de poderes emergenciais ao Supremo Chanceler Palpatine, episódio crucial para a criação do Exército de Clones e para a criação do Império Galático. Jar Jar Binks incorpora a inocência e a irresponsabilidade que pretendem ser cômicas, mas que acabam trazendo consequências trágicas.

Então, nem todos os personagens cômicos existem para oferecer alívio dramático. Muitos colaboram ativamente com o desenvolvimento da tragédia dos personagens, como também é o caso do mafioso Jabba, do clã dos Hut, o grande inimigo de Han Solo. Sua forma física corpulenta e seus trejeitos asquerosos o fazem ser a representação da cobiça e licenciosidade, valores a serem vencidos pelos heróis.

Nos mitos clássicos, o equivalente ao poderoso Jabba são os Dragões, que capturam donzelas e guardam inestimáveis riquezas. No mito de Perseu e Andrômeda, a jovem filha da rainha Cassiopeia é levada à criatura marinha de Poseidon, representada por muitos como sendo um dragão, e o herói grego filho de Zeus precisa resgatá-la.

Já a mitologia germânica narra o encontro entre Sigfried e o dragão Fafnir, que guardava o Ouro dos Nibelungos e o Anel de poder em sua caverna. Após a vitória do herói filho de Odin sobre a monstruosa criatura, ele tem acesso não somente ao tesouro, mas ao ingerir acidentalmente o sangue do dragão acaba adquirindo o poder de se comunicar com os pássaros. Ao enfrentar obstáculos gigantescos e aterrorizantes, os heróis adquirem ainda mais força e sabedoria.

Acompanhado por seus amigos, Luke Skywalker enfrenta Jabba e outros desafios mortais que surgem em seu caminho. Estes obstáculos servem para testar suas habilidades e, desta maneira, torná-las ainda mais precisas, como quando Luke enfrenta o Wampa, uma criatura de natureza predatória no planeta Hoth. Levado até a sua caverna, Luke se vê separado de seu sabre de luz, e precisa usar a Força, que apenas tinha começado a manipular, para reaver sua arma e vencer a fera.

Este é um motivo recorrente em toda a mitologia. O herói se vê cercado por testes, provas e ordálias, representados por criaturas ameaçadoras e mortais. Hércules precisa realizar seus doze trabalhos para alcançar a imortalidade, e ao longo de sua jornada enfrenta o Leão de Nemeia, a Hidra de Lerna, o Javali de Erimanto, as Aves do Estínfalo, o Touro de Creta, as Éguas de Diomedes, além dos Cães Ortros e Cérbero.

Outra etapa iniciática pela qual o herói precisa passar é a descida aos infernos, semelhante à entrada do profeta bíblico Jonas no ventre da baleia, à descida de Innana e sua passagem pelos sete portais do submundo, ao ingresso dos gregos Ulisses, Enéias e Orfeu nos domínios de Hades, e até mesmo a visita de três dias de Jesus ao mundo dos mortos.

No filme O Império Contra-Ataca, a equipe formada por Han Solo, Leia Organa e Chewbacca são forçados, durante um perseguição das forças imperiais, a entrar numa caverna em um grande meteoro. Mas esta caverna acaba se revelando o ventre de um animal semelhante a um verme, e ali as habilidades dos heróis são postas à prova.

Tal entrada na escuridão e na solidão corresponde ao incurso nas profundezas de si mesmo, onde o herói encontra suas dúvidas, seus medos e suas fraquezas, tal como Luke encontra a projeção de seus elementos mais obscuros na caverna em Dagoba. Antes de entrar, ele pergunta à Yoda sobre o que há lá dentro, ao que seu mentor responde que lá há apenas aquilo que ele levar consigo.

Os monstros terríveis representados pelas narrativas mitológicas estão no próprio psiquismo do herói, e são seus inúmeros defeitos que devem ser purificados nestes combates figurativos. Crer que tais monstros correspondem a obstáculos externos não passa de uma ilusão, tal como a ilusão de Luke no interior da caverna. Ele acredita estar lutando contra o próprio Darth Vader, até que recebe a revelação de que seu verdadeiro inimigo é ele mesmo, ou seja, os demônios que carrega em seu próprio coração.

Veja a Série Completa:


1 Resposta

  1. Leandro A.

    Joseph Campbell, em O Poder do Mito, aborda um pouco sobre mitologia e Guerra nas Estrelas.

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