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8 jul 2012

Mitologia e Guerra nas Estrelas: Encarnações da Maldade

Para cada herói que percorre a sua jornada existe um vilão que se opõe aos seu caminhar. Isso se deve ao contraste existente entre as forças do bem e as forças do mal, e cada uma destas potências é encarnada e expressa por personagens antagônicos. Antigas tradições místicas afirmam que bem e mal não vivem um sem o outro, e a fronteira que separa um do outro é muito difícil de ser distinguida.

Não só a mitologia apresenta este confronto eterno, mas também a literatura, as escrituras sagradas e a própria história, as quais apresentam uma legião de personagens malignos e perversos, capazes das mais vis crueldades. Entre eles está Darth Vader, o impiedoso carrasco do Império Galático, quem representa o ponto crítico da jornada do herói que fundamenta Guerra nas Estrelas.

Falar sobre o mal não é uma tarefa fácil. Estamos acostumados com as representações asquerosas da perversidade, mas o fato é que o mal possui um lado charmoso e encantador, sem o qual jamais conquistaria adeptos.

Neste sentido, Darth Vader é uma das mais poderosas encarnações mitológicas da maldade. Ele transpira poder, domínio, autoconfiança, assertividade, determinação e muitos outros valores que o próprio herói precisa desenvolver.

Ao usar estes atributos para o mal, combinados com seu traje negro e sua voz ameaçadora, Darth Vader provoca nos espectadores um profundo terror mesclado à uma boa dose de admiração.

Ele é capaz de destruir inimigos sem fazer muito esforço, é temido por onde quer que passe, comanda seus subordinados com agressividade, dificilmente é contrariado, veste um traje tecnologicamente avançado com uma capa que o segue esvoaçante por onde quer que vá. São inúmeras e atraentes as recompensas para quem resolve seguir o lado negro da Força.

É tão impactante a imagem de perversidade de Darth Vader, que chega a ser difícil considerar que por trás da máscara preta respira com dificuldade aquele que já foi um dos maiores heróis Jedis de todos os tempos. Em Vader, a encarnação da maldade vai acontecendo lentamente, e as etapas que configuram a transformação do menino prodígio em senhor da maldade são mostradas ao longo da mais recente trilogia de Guerra nas Estrelas.

Veja a Série Completa:

Mitologia e Guerra nas Estrelas: Parte 1
Mitologia e Guerra nas Estrelas: Parte 2
Mitologia e Guerra nas Estrelas: Parte 3
Mitologia e Guerra nas Estrelas: Parte 4
Mitologia e Guerra nas Estrelas: Parte 5
Mitologia e Guerra nas Estrelas: Parte 6
Mitologia e Guerra nas Estrelas: Parte 7

No primeiro episódio da saga, intitulado A Ameaça Fantasma, Encontramos Darth Vader como o pequeno Anakin Skywalker, um escravo que é libertado por Qui-Gon Jinn, o Mestre Jedi que o leva consigo para longe de sua mãe, dando início em sua própria jornada do herói. Anakin é um menino talentoso que cresce num ambiente opressivo e sofre perdas enormes logo no início de sua vida.

Ao longo de seu treinamento como Jedi, o medo e o apego à figura materna sempre o acompanharam. Quando ele retorna ao seu planeta natal, Tatooine, sua mãe morre em seus braços. Este evento desperta sua revolta e seu ódio, o que o leva a aniquilar toda a tribo do Povo da Areia, incluindo mulheres e crianças.

Anakin considera que poderia ter feito algo para salvar sua mãe, e este é o momento em que nasce no herói a tentação pelo poder, algo que Luke será capaz de evitar no futuro. Luke também é capaz de evitar ser tomado pela ira, mesmo quando assiste à emboscada preparada pelo Imperador no filme O Retorno do Jedi. O domínio das paixões são o tema central na jornada de Anakin Skywalker, da mesma forma como são da Ilíada, que conta a tragédia desatada pela ira do herói Aquiles.

Neste famoso épico grego, Aquiles vive o mesmo drama de poder e glória do jovem Skywalker. Líder do exército grego, ele está constantemente com raiva, seja de Agamenon ou de Heitor, e isso o leva a cometer inúmeras atrocidades. Os primeiros versos da Ilíada afirmam que a cólera funesta de Aquiles causou inumeráveis dores aos aqueus e precipitou no Hades incontáveis almas de heróis, e o mesmo pode ser dito de Anakin.

Ele é impaciente e deseja poder, e quando o Conselho Jedi não lhe confere o grau de Mestre ele se comporta como um adolescente chorão e mimado que se sente injustiçado pela vida e pelas autoridades. Pode parecer estranho ver o maior vilão da galáxia agindo desta maneira, mas o processo de amadurecimento de todo herói compreende esta fase.

O problema acontece quando, ao continuar sua jornada, Anakin toma como mentor o maligno Palpatine, mais conhecido pelos Sith como Darth Sidious. Esta relação vai se fortalecendo, e o papel mítico universal do guia espiritual assume características sombrias. Palpatine é capaz de seduzir Anakin para o lado negro da Força usando um artifício mitológico bastante conhecido.

No jardim do Éden, Adão e Eva são tentados pela serpente de uma forma muito similar ao que acontece em Guerra nas Estrelas. Assim como a serpente afirma que com a maçã Adão e Eva poderão ser deuses, Palpatine diz que apenas através dele Skywalker poderá alcançar um poder que nunca havia imaginado. A serpente também afirma que Deus não deseja que eles se tornem deuses, enquanto Palpatine diz que os Jedis não querem que Anakin se torne muito poderoso.

Palpatine sabe que Anakin é atormentado por pesadelos nos quais Padme morre no parto. Novamente o herói teme perder a mulher de sua vida, antes a mãe e agora a esposa, e isso se converte no fator que o encaminha diretamente ao lado negro da Força. O mentor maligno manipula seu aprendiz, oferecendo a ele a possibilidade da imortalidade.

No fim, o herói sucumbe à tentação, da mesma forma como o mitológico Fausto, que no mito germânico vende sua alma ao diabo para alcançar poder. Cansado de uma vida enfadonha, e apesar de sua eminência intelectual, Fausto invoca a presença de Mefistófeles. A figura demoníaca oferece seus poderes mágicos para que Fausto satisfaça suas ânsias de poder e prazer, mas no fim cobra a dívida e carrega consigo sua alma ao inferno.

Contudo, quando Anakin é batizado como Darth Vader, sua história se torna equivalente à do próprio diabo. Contam as tradições cristãs e judaicas que Lúcifer era o anjo mais belo de todos, mas que sua soberba e arrogância o levaram a provocar uma guerra nos céus. Com a derrota vem sua expulsão, e a criação de um reino próprio no inferno, um lugar muito semelhante à Mustafar, onde Anakin encontra refúgio após ter se tornado a própria encarnação da maldade.

É ali, em meio à lava, à ruína e à destruição que ocorre a batalha entre Anakin Skywalker e Obi-Wan Kenobi. Os dois estão cercados por um ambiente apocalíptico, repleto de elementos que refletem o estado interior do personagem central da tragédia. No último embate, Anakin é derrotado, seu corpo é mutilado e colocado em chamas. As paixões de Skywalker são refletidas nas queimaduras que consomem seu corpo e a perda de sua identidade é mostrada através da sua mutilação.

Em conformidade com o mito grego do Nêmesis, segundo o qual o agente da desordem será também sua vítima. O preço do mal fica aparente através da ação implacável e impiedosa deste espírito mítico da retribuição àqueles que cometem o hubris, palavra grega que significa arrogância em relação aos deuses.

Este inferno que Anakin precisa atravessar é diferente daquele visitado por Luke, pois é a consequência de sua arrogância e seu desejo por poder ilimitado. A tentativa de se converter em um deus, impulsionada por elementos bestiais como o desejo pelo poder e a arrogância, extirpa a sua humanidade, e não é nada surpreendente encontrar Darth Vader como uma mescla de homem e máquina. O supremo mal é a ausência do supremo bem, e este deve ser buscado naquilo que nos torna humanos.

Veja a Série Completa:


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