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29 set 2011

A Voz Suave e Silenciosa da Paz

Crianças são verdadeiros mestres da arte dramática. Se você já viajou longas distâncias com crianças no banco de trás do carro, sabe bem do que estou falando. Mal a viagem começa, o deslumbramento e a diversão são substituídos pelas inevitáveis perguntas e reclamações: “Ainda falta muito pra chegar? Estou com fome! Estou com sede!”

Não demora muito e o drama atinge um novo nível: “Estou morrendo de fome!” – grita um dos pequenos. E de nada adianta responder: “Existem crianças na África que não comem há dias… Elas sim estão morrendo de fome…” Logo outro grita: “Estou morrendo de vontade de ir ao banheiro!”

As crianças não são as únicas que possuem a capacidade de aumentar as coisas. Quem de nós, um dia, já não olhou para si no espelho e, ao ver uma pequena mancha estranha, ou um pequeno inchaço, logo se imaginou passando por meses de quimioterapia ou radioterapia, ou até mesmo sonhou com o próprio velório, as pessoas queridas, todas tristes, dizendo adeus…

E toda esta ansiedade acaba não resultando em nada, pois descobrimos que aquela pequena mancha, aquele pequeno inchaço, não passavam de uma simples espinha. Pois bem, fica claro que às vezes é mais fácil espremer uma espinha do que compreender o funcionamento de nossa mente e de nosso ego.

Este negativismo exagerado não faz bem para a nossa saúde mental, pois nos coloca em um estado de depressão e ansiedade. Pior que isso, ele pode se converter naquilo que o sociólogo Robert K. Merton chamava de profecia auto-realizável, ou seja, um prognóstico que, ao se tornar uma crença, provoca a sua própria concretização. Funciona mais ou menos assim: se o pior nunca acontecer, você terá sofrido em vão; e se acontecer, terá sofrido duas vezes.

Estes exageros apenas criam os cenários que nosso pessimismo deseja ouvir para justificar seu ponto de vista catastrófico das coisas. Fazemos isso quando estamos presos no trânsito e imaginamos que a reunião que estamos perdendo é o início do fim de nossa carreira. Ou quando vemos as notas baixas de nosso filho e tememos que ele nunca consiga ser alguém na vida.

Ao tomar posse de nossa imaginação, nosso negativismo cria estórias que não correspondem à realidade, e as alimenta com evidências extraídas de situações não relacionadas com o fato original. Isto gera uma espiral de pessimismo que, pouco a pouco, converte a estória em algo completamente irracional, semelhante à fome fatal de uma criança durante uma longa viagem.

Normalmente o negativismo se fundamenta no medo da mudança e na falta de autoconfiança. É uma das formas encontradas pelo nosso ego de se esconder atrás do medo e de um falso sentimento de segurança. Há uma passagem bíblica em que o povo de Israel, guiado por Moisés, perambula pelo deserto em busca da terra prometida, até que a certa altura, cansados de não chegar a lugar nenhum, começam a imaginar o pior.

“Não havia tumbas suficientes no Egito para que você nos trouxesse para morrer neste deserto? Seria melhor servir como escravos dos egípcios do que morrer nesta desolação!” – disseram alguns pessimistas a Moisés. E ele respondeu: “Não tenham medo, e vejam a liberdade que Deus nos concede no dia de hoje. Ele lutará por nós, vocês só precisam ficar em silêncio.”

Com certeza Moisés não estava sendo otimista. Aquela longa viagem ainda durou mais quarenta anos, e só então o povo de Israel alcançou a liberdade. É bem provável que Moisés não estivesse falando sobre a emancipação física daquele povo, e sim sobre uma liberdade interior, que poderia ser alcançada ali mesmo, naquele instante.

De alguma forma, Moisés nos oferece três antídotos do negativismo:

1. Considere outras alternativas. Os israelitas estavam certos de que havia apenas duas opções: ou os egípcios os capturariam, ou eles morreriam no deserto. Moisés os convida a enxergar outra alternativa, e é isso que devemos fazer através de nossa imaginação. Nossa visão interior é capaz de criar múltiplos cenários, todos eles com possibilidades de concretização. Então, para que imaginar o pior?

2. Tenha paciência. Assim como os israelitas deviam confiar em Deus e esperar por sua intervenção, nós também devemos esperar e observar com paciência o desenrolar dos fatos, sem tomar conclusões precipitadas. As coisas boas são esquecidas com a mesma facilidade com que nos apegamos às coisas ruins. Não esqueça que muitas vezes coisas boas se vão, e no lugar delas surgem coisas ainda melhores.

3. Fique em silêncio. Ao contrário do que se pode imaginar, Moisés não estava sendo estúpido com seu povo. Quando recomenda o silêncio, ele se refere ao silêncio interior, que consiste em viver e se concentrar no momento presente, ato que interrompe o círculo vicioso da imaginação negativa.

Se estes conselhos parecem ser apenas um exercício mental, não se esqueça que a nossa mente funciona como uma reunião de condomínio. Sim, isso mesmo… Nestas reuniões sempre há aqueles sujeitos pessimistas, que enxergam defeito em tudo e nunca colaboram apresentando sugestões construtivas. As vozes negativas em nossa mente são como as vozes destas pessoas.

No entanto, no meio de todas estas vozes, há uma voz suave e silenciosa, a voz de sua própria alma ou essência interior, a voz de sua consciência, que inclui e transcende todas as demais perspectivas. Ela é suave e silenciosa, não por ser fraca, pois, do contrário, é a sua voz mais poderosa. Ela não precisa erguer a voz para ser ouvida, pois não contradiz a realidade.

Esta voz não possui ideias pré-concebidas do futuro, e permanece sempre aberta, ativa e presente, considerando tudo como um trabalho em construção. Esta voz é calma e não se apressa em convencer os demais de suas convicções, exercendo uma persuasão gentil e respeitosa, visando à resultados que favoreçam a todos.

A voz suave e silenciosa que se pronuncia em meio à confusão de pensamentos pessimistas e exagerados é a voz da paz. A paz brota em nosso interior quando alcançamos este estado de autoconsciência, pois aí sabemos realmente quem somos em essência e não nos confundimos com as demandas irracionais de nosso ego, que só trazem ansiedade, medo, tristeza e conflito.

A voz suave e silenciosa da paz nos oferece uma visão clara da realidade, e quando aprendemos a dar ouvidos à ela, tomamos as rédeas de nossa mente e, consequentemente, de nossa própria vida.

Publicado no Guia da Busca.

2 Respostas

  1. Aramis

    Giordano,

    No 8o parágrafo (que começa com: “Normalmente o negativismo se fundamenta no medo da mudança e na falta de autoconfiança.”) tá escrito “guido”.

    Mas os 3 antídotos contra o negativismo são mto bons!
    Parabéns!

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