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25 jun 2012

O Dalai Lama e a Sexualidade Sagrada

Ao redor de todo o mundo, especialmente no mundo ocidental, o Budismo está entre as religiões que mais conquistam adeptos e simpatizantes. Seu grande embaixador é o Dalai Lama, admirado e respeitado por causa de sua sabedoria e seu carisma, sua forma clara de expor os princípios do ensinamento budista e sua abertura para o diálogo com a ciência e outras formas religiosas.

Mas o Budismo é uma tradição espiritual bastante complexa, que não trata apenas de meditação, mantras, rosários e compaixão. Além destes elementos mais populares, ele oferece práticas que podem conduzir a níveis bastante elevados de iluminação e vacuidade. Entre estas práticas, há técnicas tântricas que empregam o sexo como uma poderosa ferramenta de elevação espiritual.

A mentalidade ocidental encontra certa dificuldade para compreender como o sexo pode se tornar um caminho de desenvolvimento espiritual. O entendimento parcial da tradição cristã sugere que o corpo é a porta de entrada do pecado, e que o sexo deve servir apenas para fins de procriação.

Contudo, isso não impediu que certos ensinamentos orientais – incluindo budistas – sobre a sexualidade sejam tratados de maneira licenciosa no ocidente, como uma ferramenta capaz de atrair o sucesso financeiro ou um treinamento que promete transformar o indivíduo num atleta ninfomaníaco.

Há muitos budistas que por diversos motivos ainda não se aprofundaram nos chamados Três Giros da Roda do Dharma, o que significa dizer que também acharão estranho à primeira vista que o próprio ato sexual, quando realizado sob certas condições, possa ser considerado um elemento mais avançado da busca pela realização da vacuidade.

Os ensinamentos de Buda são tão vastos e foram entregues em um intervalo tão grande de tempo, que costumam ser divididos de acordo com o momento em que foram transmitidos. Estes momentos são agrupados em três, os tais Três Giros mencionados acima, em que os princípios do ensinamento budista são explicados em diferentes níveis de profundidade, para que sirvam às também diferentes necessidades de todos os seres humanos.

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Mesmo assim, o Budismo Tibetano, que é representado pelo Dalai Lama, considera que a compreensão da doutrina como um todo depende do conhecimento dos chamados Veículos ou métodos de prática espiritual realizados pelas diferentes escolas budistas. Em uma das classificações existentes, estes veículos são conhecidos como Hinayana, Mahayana e Tantrayana.

De alguma forma, os Três Giros e os Três Veículos possuem correspondência. O primeiro veículo, Hinayana, compreende sutras ou ensinamentos bastante objetivos e que devem ser realizados de maneira literal. O segundo veículo, o Mahayana, mostra que os mesmos sutras podem ser interpretados em diversos níveis de profundidade.

Já o terceiro veículo, o Tantrayana, está relacionado a diferentes meios de potencializar, ampliar e catalisar a sabedoria que conduz à vacuidade. E isso se realiza mediante diversas práticas, entre as quais o karmamudra, a união sexual em que os consortes buscam fechar hermeticamente suas mentes e seus corpos, permitindo concentrar as múltiplas expressões da energia sexual e usá-la para o desenvolvimento espiritual.

Portanto, é dentro deste último veículo, o Tantrayana, que podem ser encontrados ensinamentos diretos e práticos sobre como a sexualidade pode ser um caminho de desenvolvimento das faculdades espirituais. Tais ensinamentos são similares ao que propõe Samael Aun Weor, quando apresenta os fundamentos do Nascimento Espiritual, o segundo dos Três Fatores de Revolução da Consciência.

Samael Aun Weor propõe que a ideia do sexo como via de iluminação não é um ensinamento novo, mas constitui um dos fundamentos de todas as formas religiosas. Ele afirma que a sexualidade sagrada faz parte daquela classe de ensinamentos mais avançados e mais reservados das grandes tradições espirituais, e se isso é verdadeiro em relação ao Budismo, certamente o Dalai Lama deveria possuir algum conhecimento a este respeito.

E de fato ele possui, como atestam as suas próprias palavras:

“Para os budistas, o ato sexual pode ser utilizado no caminho espiritual porque pode causar uma centralização poderosa na consciência se o praticante possui compaixão e sabedoria consistentes. O propósito desta utilização é a manifestação prolongada de níveis mentais mais profundos, de modo que seu poder possa ser usado no fortalecimento da realização da vacuidade.” (How to Practice, Way to a Meaningful Life, His Holiness the Dalai Lama, Translated by Jeffrey Hopkins)

A manifestação prolongada de níveis mentais mais profundos corresponde exatamente ao sentido da palavra Tantra, que significa continuidade. Os diferentes tratados tântricos afirmam que Tantra significa a continuidade da consciência que permite a realização de melhoramentos mentais e a experimentação de realizações mais profundas.

Além disso, esta continuidade da consciência é o que permite alcançar o estado definitivo da onisciência. Neste momento, esta continuidade está sempre presente, e este é também um dos significados do Tantra.

Devido ao apelo que exerce em toda a natureza e no ser humano, o sexo é o grande elemento de distração da consciência. Manter a continuidade da consciência em meio à estimulação sexual serve como elemento capaz de potencializar este contínuo e catalisar o surgimento da onisciência.

O praticante da sexualidade tântrica não procura simplesmente a extensão de sua capacidade de sentir prazer, mas sim utilizar o potencial de distração do erotismo como arena para o desenvolvimento completo de sua consciência contínua. É mais ou menos isso o que o Dalai Lama explica no parágrafo seguinte:

“Não sendo desta maneira, o ato sexual ordinário e convencional não possui qualquer relação com o cultivo da espiritualidade. Quando uma pessoa atingiu um nível alto na prática da meditação e da sabedoria, então nem mesmo a junção dos dois órgãos sexuais, o chamado intercurso sexual, é capaz de prejudicar a manutenção de seu comportamento puro…” (How to Practice, Way to a Meaningful Life, His Holiness the Dalai Lama, Translated by Jeffrey Hopkins)

É interessante notar que uma das autoridades máximas do Budismo Tibetano afirma indiretamente que a sexualidade pode ser um grande obstáculo para as práticas iniciais da tradição budista compreendidas no Primeiro Giro da Roda do Dharma, o qual compreende os princípios básicos para o desenvolvimento da Ética e da Moralidade, bases para o cultivo da concentração e da sabedoria.

Se a princípio o ensinamento budista referente ao sexo pode ser sintetizado na abstenção de condutas sexuais equivocadas, preceito que faz parte da Ação Reta, que é o quarto item da Nobre Senda Óctupla, capaz de levar à extinção do sofrimento, a quarta das Nobres Verdades, nos demais Giros da Roda do Dharma ele passa a assumir grande importância.

Contudo, é preciso que antes o praticante tenha sido capaz de levar adiante uma mudança prática de paradigma em relação à sexualidade. Para que essa mudança ocorra, o Budismo oferece a instrução de uma vida sexual que não produza consequências contaminadas por atitudes negativas, mas em seguida destaca a importância do celibato para os monges que assumem votos visando ao aprofundamento de sua prática.

É neste momento que os adeptos experimentam a continência das energias e dos fluidos sexuais, preparando seu corpo e sua mente para as práticas mais avançadas oferecidas pelo Tantrayana. O Dalai Lama continua destacando os benefícios do emprego da sexualidade na prática espiritual:

“Através de técnicas especiais de concentração durante o sexo, praticantes competentes podem prolongar estados muito profundos, sutis e poderosos, e colocá-los a serviço da realização da vacuidade. Contudo, se você vai ao ato sexual dentro do mesmo contexto mental ordinário, não existe nenhum benefício.” (How to Practice, Way to a Meaningful Life, His Holiness the Dalai Lama, Translated by Jeffrey Hopkins)

Sua Santidade insiste na diferenciação entre o ato sexual ordinário e comum, realizado por pessoas que não possuem os conhecimentos a respeito da natureza do corpo, da emoção, da mente e dos propósitos da alma nesta existência, e o ato realizado por indivíduos instruídos nos Três Giros da Roda do Dharma. Abaixo ele chega a indicar a condição primária para que o ato sexual possa servir como instrumento de elevação espiritual:

“Ainda que eu esteja usando o termo comum clímax sexual, ele não corresponde ao ato sexual ordinário. A referência aqui é à experiência do estabelecimento da união com um consorte do sexo oposto, através do qual os elementos da coroa são derretidos, e através do processo de meditação o processo ainda é revertido. Um pressuposto desta prática é que você deveria ser capaz de se proteger do erro da emissão seminal.” (A Survey of the Paths of Tibetan Buddhism, A teaching given in London, 1988. Translated by Geshe Thupten Jinpa and edited by Jeremy Russell. It was originally published in Chö-Yang (No.5) which was a magazine published by the Department of Religion and Culture of the Central Tibetan Administration, Dharamsala.)

Fica claro que para alcançar os objetivos que o Tantrayana propõe, o ato sexual é necessário e a continência seminal é um elemento indispensável. Sob a ótica desta antiga tradição, e mediante uma compreensão mais abrangente que engloba ensinamentos de outras correntes, os fluidos sexuais e suas contrapartes são produzidos no alto da cabeça, quer seja pelo comando das glândulas localizadas nesta região, quer seja pelo chakra coronário, ou ainda, na linguagem do cristianismo esotérico, pela interferência do Espírito Santo.

Uma vez produzidos nas alturas do organismo, os chamados fluidos regenerativos e seus análogos energéticos atravessam o organismo conferindo vitalidade e sendo transformados nas demais energias, como o pensamento e o sentimento. Ao fim, são acumulados nos depósitos orgânicos e energéticos.

A retenção e a manipulação destes fluidos são o que distingue o ato sexual convencional do coito que visa à transcendência. Esta diferença é explicada em maiores detalhes pelo Dalai Lama:

“Existe uma grande diferença entre o movimento dos fluidos regenerativos no caso de dois indivíduos que realizam um ato sexual ordinário e o movimento no caso de um iogue e uma ioguina que realizam o intercurso sexual… No início, a diferença majoritária entre os dois tipos de ato sexual está no controle do fluxo dos fluidos regenerativos. Os praticantes do Tantra devem ter controle sobre o fluxo de seus fluidos, e aqueles que possuem grande experiência são capazes de reverter a direção deste fluxo, mesmo quando ele tenha atingido a extremidade dos genitais. Os praticantes menos experientes devem reverter a direção do fluxo em um ponto anterior. Se os fluidos descerem demais, será mais difícil de controlá-los.” (Sleeping, Dreaming, and Dying, by The Dalai Lama, 1997, Wisdom Publications)

Algumas pessoas poderiam interpretar tais orientações como sendo direcionadas apenas ao composto energético de cada indivíduo. Apesar da clareza com que Sua Santidade aborda a questão, poderia ser insistido que se trata de uma concepção meramente simbólica, sem conotação física, o que acaba se provando falso mediante as seguintes observações:

“Na verdade, [..] o órgão sexual é utilizado, mas o movimento da energia que está presente é, no final das contas, totalmente controlado. A energia não deveria nunca ser liberada. Esta energia deve ser controlada e finalmente redirecionada a outras partes do corpo. E aqui é possível observar a existência de um tipo de conexão especial com o celibato.” (Quoted from “The Good Heart,” H.H. the Dalai Lama)

De qualquer maneira, o conjunto de ensinamentos budistas apresenta esta submissão dos fluidos sexuais ao poder da vontade como uma alternativa espiritual somente aos indivíduos que possuem preparo adequado. No que diz respeito aos leigos que praticam os ensinamentos expressos pelo Primeiro Giro da Roda do Dharma, o Dalai Lama não opina se devem ou não submeter seus fluidos à continência.

Existem inúmeras passagens do próprio líder budista que sugerem ser as práticas sexuais ritualísticas do Tantrayana reservadas apenas aos indivíduos que já avançaram nos aspectos do controle da mente e da capacidade de selar seu organismo, o que significa haver conseguido certa habilidade na retenção seminal.

“A capacidade de entrar em contato sexual sem liberar o sêmen é algo necessário quando você pratica os estágios avançados do estágio da perfeição.” – The 14th Dalai Lama (Berzin Archives)

Certamente, parece ser adequado aos praticantes dos ensinamentos de Buda segundo a estrutura do Budismo e inseridos em uma Sangha budista, que sigam tais orientações. Isso significa dizer que, no paradigma budista iniciado há mais de dois milênios, a retenção seminal só tem sentido quando existe comprometimento com o avanço na compreensão dos ensinamentos do Segundo e do Terceiro Giro da Roda do Dharma.

Em se tratando do Gnosticismo Contemporâneo, as coisas mudam de figura. A proposta lançada por Samael Aun Weor pode ser entendida como uma Doutrina da Síntese, que expõe de maneira bastante clara os ensinamentos mais avançados das tradições espirituais de todos os tempos numa linguagem mais simples e objetiva.

Isso porque esta proposta está configurada de uma maneira diferente, trazendo os ensinamentos reservados e mais avançados das antigas tradições espirituais para fora de suas estruturas didáticas e pedagógicas, assim facilitando uma prática mais individual de tais elementos doutrinários, permitindo ao indivíduo a vivência gnóstica destes ensinamentos.

Não pretende o Gnosticismo Contemporâneo ser um caminho melhor que os demais, mas uma exposição de certos princípios que mostram claramente que todos os caminhos levam ao mesmo lugar e, portanto, são o mesmo caminho, mesmo que as guias que os definam sejam mais retas ou tortas, amplas ou estreitas. Enfim, a Gnosis não é um caminho diferente, mas a própria caminhada que se realiza através de todos eles.

10 Respostas

  1. Já tinha tido acesso a algumas das palavras de Sua Santidade Dalai Lama citadas por si meu amigo. São informações que muitos praticantes gnósticos do Grande Arcano AZF nunca tiveram acesso. Fizeste simplesmente um artigo obrigatório a todos os conhecedores e praticantes dos ensinamentos do M. Samael e do M. Dalai Lama. Parabens ;)

  2. Cássio Rogon

    O texto é esclarecedor e bastante relevante. Só acho que o sucesso financeiro não precisa ser tratado de forma pejorativa, como no início da narrativa. Mas, no geral, está ótimo. Parabéns.

  3. Cássio,

    Obrigado pelas palavras e pelo comentário.

    Contudo, esclareço que no texto não tratamos o sucesso financeiro, em si mesmo, de forma pejorativa. O que consideramos ser um equívoco é o emprego de tais ensinamentos com esta finalidade.

    Abraços Fraternos!

  4. samuel

    O budismo em sí, acredita em algo relacionado a ”fornicação” ou sexo antes do casamento?

  5. Olá Samuel,

    Obrigado pela sua mensagem.

    O budismo fala sobre ética sexual, sobre cultivar uma boa conduta sexual.

    Em essência, ensina a não provocar sofrimento através do sexo.

    Abraços Fraternos!
    Paz Inverencial!

  6. Mitika Nagao

    Fiquei surpresa ao encontrar SAWEOR citado em um texto sobre budismo. Já li muito sobre os ensinamentos gnósticos e O MATRIMONIO PERFEITO foi uma revelação para mim na época em que li o texto. Agora consigo compreender a extensão de sua prática e como se relaciona com os outros veículos de desenvolvimento espiritual!!
    Grata pelos esclarecimentos!!

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